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Sob o Luar


Hoje vamos começar com uma nova série de artigos que se irão espalhar ao longo dos próximos tempos em que vamos abordar várias divindades, de vários panteões. Vamos falar sobre os seus mitos, as suas associações e um pouco da sua história. Estes artigos não têm como objectivo substituir a investigação sobre as divindades mas sim despoletar interesse e, também, fornecer alguns pontos de partida para iniciar contacto com as Deusas e Deuses de que falaremos. 

As informações contidas nestes artigos não são suficientes para sustentar uma prática de culto a uma divindade e investigação adicional é sempre necessária. No fundo de cada artigo deixamos uma lista de sites e livros recomendados sobre cada divindade, de forma a que possam explorar mais sobre cada Deusa e Deus que falamos aqui. Ao longo do artigo vamos deixando também links para informações adicionais e explorações aprofundadas de certos tópicos. 

E, como é claro, a Deusa que irá dar abertura a este série de artigos será a Deusa à qual me dedico e honro à tantos anos, a Senhora Hekate. 

***

Nome: Hekate ou Hecate. Ἑκάτη em grego. Existem diversos significados atribuídos ao seu nome (não temos certeza de nenhum deles) sendo que alguns são "aquela que trabalha de longe/distante" ou "aquela que trabalha de sua vontade". 

Panteão: Grego, porém a sua origem antecede o surgimento do panteão grego como o conhecemos. A sua origem é, frequentemente, atribuída à Anatólia, onde ainda hoje existe um templo a sua honra, perto da actual cidade de Lagina na Turquia. 

História e Mitologia:
A origem do culto a Hekate é um tema bastante debatido, sendo que não temos forma concreta de traçar a sua origem a uma cultura específica. Frequentemente a sua origem é atribuída à Anatólia, sendo que, mais tarde, temos os registos da sua presença no panteão grego, começando com a Teogonia de Hesíodo, onde Hekate nos é apresentada como uma Titã, filha de Asteria e de Perses, respeitada por Zeus e por todos os Deuses Olímpicos. Hekate tem, segundo Hesíodo, domínio sobre os três reinos (Céu, Terra e Oceano), um papel de destaque para uma Deusa Titã.

"(...) Asterie conceived and bore Hekate, whom above all
Zeus Kronides honored. He granted her glorious gifts and
to have a portion of the Gaia and unplowed sea.
She has a portion also of the starry Ouranos as her province.
She is especially honored among the immortals gods (...)"
- Theogony, Hesiod (link abaixo)

Para saber detalhadamente mais aprofundamente sobre a história de Hekate eu recomendo vivamente o livro "Circle for Hekate: Volume I – History and Mythology" de Sorita d’Este (link abaixo) em que a autora nos fala sobre a história e a mitologia desta Deusa, de forma muito detalhada, clara e com todas as origens e fontes. É um trabalho fantástico e que brevemente irei analisar aqui no blogue. 

Hekate é uma Deusa com variadíssimas características e responsabilidades que lhe são atribuídas: É uma Deusa associada à Magia, à Bruxaria, à Noite, à Lua, a Fantasmas, à Necromancia, aos Caminhos, ao Oceano, às Tochas, às Encruzilhadas, aos Portões, ao Hades (submundo grego) e, claro, a um dos mais famosos mitos da Antiguidade Grega: A Descida de Perséphone ao Submundo. 

O mito de Persephone, contado no Hino Homérico a Deméter, é o mito grego que explica a passagem das estações do ano, atribuíndo-as à descida de Persephone ao Submundo, após ser levada pelo Deus Hades e tornada Rainha do Submundo. Neste mito, Hekate com as suas tochas ajuda Deméter em busca de Persephone e, após a decisão de Zeus que define o tempo que Persephone deverá passar com a sua mãe Deméter e com o seu esposo Hades, Hekate torna-se companheira de Persephone, acompanhando-a na sua viagem sazonal. Hekate desempenha também, claro, um papel relevante nos Mistérios de Elêusis, que estão intimamente ligados a este mito. 

Hekate é, ao contrário da ideia popular, uma Deusa tradicionalmente representada como sendo Deusa Virgem (à semelhança de Artémis). Recomendo ler, em inglês, um pequeno texto sobre o assunto entitulado: "Hekate’s Profanation: Maiden, Mother or Crone Goddess" do site do Covenant of Hekate. Sendo que, frequentemente, ela é identificada e até "misturada" com outras divindades como Selene e Artémis, recordando-nos da sua ligação lunar. 

A Deusa Hekate é uma divindade complexa e, como tal, recomendo vivamente um aprofundamento do estudo acerca Dela, se assim desejarem (recursos no fundo do artigo). 

Celebrações: Uma das práticas antigas de celebração a Hekate era o Deipnon, realizado no primeiro dia do ciclo lunar (Lua Nova), em que era realizada uma limpeza nas casas gregas e uma oferenda a Deusa Hekate, colocada numa encruzilhada. Recomendo vivamente o artigo "Observing Hekates Deipnon" para aprofundar o conhecimento sobre esta celebração. A nível de práticas modernas temos três celebrações a assinalar: Os Ritos dos Fogos Sagrados de Hekate (Na Lua Cheia de Maio, organizado pelo Covenant of Hekate), o Dia de Hekate (celebrado a 13 de Agosto), Noite de Hekate (celebrada a 16 de Novembro). Podem clicar nas respectivas celebrações para informações mais detalhadas sobre as mesmas. Adicionalmente recomendo o artigo "30 Days of Hekate: 11 – Festivals and Sacred Days" para conhecer um pouco mais sobre celebrações relacionadas com Hekate. 

Geneologia: Existem várias genealogias atribuídas a Hekate sendo que a mais comum é a que os seus pais são os titãs Perses e Asteria. Quanto a filhos, Hekate é habitualmente referida como uma Deusa Virgem (à semelhança de Artémis) e não teve filhos. Porém existem referências de Circe e Medeia serem suas filhas, em alguns mitos.

Epítetos: Brimo ("Assustadora"/"A Zangada"), Chthonia ("Ctónica", "da Terra") Despoina ("Senhora"), Einalian ("Do Mar"), Enodia ("Dos Caminhos", "Das Encruzilhadas"),  Kleidouchos ("Portadora das Chaves"), Nychia/Nykhia ("Nocturna", "Senhora da Noite"), Ourania ("Dos Céus", "Celestial"), Phosphoros ("A Portadora da Luz"), Potnia Theron ("Senhora dos Animais", "Senhora dos Animais Selvagens"), Soteira ("A Salvadora"), Trioditis ("A dos Três Caminhos"), entre outros. 

Símbolos: Encruzilhadas, Tochas, Chaves, Portões/Portas, Lua, Cães, Leões, Bois, Cavalos, Lua, Acónito, Mandrágora, Bronze, entre outros.  

Leitura Recomendada: 
  • Theoi - Hekate 
  • Covenant of Hekate 
  • "Teogonia" de Hesiodo
  • "Hekate Liminal Rites" de Sorita D’Este e David Rankine 
  • "Circle for Hekate: Volume I – History and Mythology" de Sorita ’Este 
  • "Hekate Soteira" de Sarah Iles Johnston 
  • Antologia "Hekate: Her Sacred Fires" Vários autores e editado por Sorita d’Este
  • "Keeping Her Keys: An Introduction to Hekate's Modern Witchcraft" de Cyndi Brannen 
* Os links fornecidos pertencem a 'Affiliates Programs' e geram uma pequena taxa de lucro ao Sob o Luar. Não existe qualquer despesa adicional para o comprador.

Este ano o Hekate Symposium aconteceu na sua primeira edição 100% online nos dias 22 e 23 de Maio! Eu (Alexia) tive o prazer de estar presente como voluntária e a assistir às palestras e cerimónias que ocorreram ao longo destes dias, com eventos extras nos dias 20 e 21 (quinta e sexta). Assim sendo gostaria de fazer a cobertura deste evento e agradeço imenso à Sorita d'Este pela oportunidade não só de participar como voluntária mas também por me deixar cobrir o evento. 

Tivemos vários eventos ao longo dos quatro dias que constituíram o Hekate Symposium: Dois dias extras (quinta e sexta) com conteúdos variados e apresentação de filmes e vídeos feitos por devotos e, claro, os dois principais dias do Symposium com várias palestras e conteúdos extras como conversas sobre Devoção entre vários devotos de Hekate e outros.

O programa do Hekate Symposium 2021 foi:

Quinta-feira

Abertura e boas-vindas por Sorita d'Este. Inclui uma introdução à Deusa Hekate com imagens de diferentes lugares e épocas de sua longa história.

Hino Homérico a Deméter, recitado por Emily Carding

Filme: "Hekate Rising" de Carrie Kirkpatrick

Orpheus in Tartarus by Orryelle Defenestrate-Bascule

Skin Surface Substance by Orryelle Defenestrate-Bascule

Magical Gems and Jewellery by Dr Caroline Tully

Opinião: Quinta-feira foi um fantástico primeiro dia deste evento. O Hino Homérico a Deméter foi, sem dúvida, dos pontos altos deste Symposium e Emily Carding é simplesmente divinal e fantasticx! Os filmes transmitidos (tanto de Carrie Kirkpatrick como de Orryelle) foram belíssimos, tendo sido transmitidos também na sexta a seguir dado terem sido muito solicitados pelos participantes. Por fim, tivemos uma fantástica palestra com Dr Caroline Tully sobre gemas e cristais mágicos e a sua ligação com divindades e com Hekate, muitas aprendizagens! 

Sexta-feira

Meditação de Abertura com Magin Rose

How to speak the language of the Gods by Dr Sasha Chaitow

Hekate’s Auguries with Arabela Jade & Drayk Benfield

A dialogue with Jeff Cullen

Orpheus in Tartarus by Orryelle Defenestrate-Bascule

Skin Surface Substance by Orryelle Defenestrate-Bascule

Como foi o dia?: À semelhança de quinta-feira, neste dia tivemos também várias transmissões de filmes e conteúdos. Houve também uma palestra com Dr Sasha Chaitow que foi fascinante sobre a linguagem dos Deuses e, acima de tudo, do grego antigo e línguas semelhantes. Outro dos pontos altos do Symposium ocorreu nesta sexta-feira quando a Sorita d'Este teve a oportunidade de estar a falar com Jeff Cullen, um fantástico artista e ocultista dedicado a Hekate que recentemente lançou o livro Liber Khtonia, que esgotou rapidamente em capa dura e está quase a esgotar de capa mole! 

Sábado

Introdução e Orientação

Bênçãos do Início do Symposium por Magin Rose 

A Place of Worship by Georgi Mishev PhD

Many Named Mother of the Gods by Sorita d’Este

Making Revelation and Research Rhyme by Jason Miller

Navigating the Pandemic Year by Caroline Wise & Carrie Kirkpatrick

Following Her Torches by Christina Moraiti

The Balkan Mysteries of Hekate by Georgi Mishev PhD

Como foi o dia?: Este foi o "primeiro dia oficial" do Symposium e foi um dia genial! Recheado de palestras e recursos fascinantes, começamos com uma pequena cerimónia conduzida por Magin Rose que foi lindíssima e seguimos para a primeira palestra, cortesia de Georgi Mishev que nos apresentou um templo aos Deuses Antigos, principalmente Hekate e Dyonysos, na Búlgaria. Um espaço lindíssimo para todos os praticantes da zona. De seguida, tivemos uma pequena conversa com Sorita d'Este sobre o papel de Hekate como a "Deusa dos Vários Nomes". Logo a seguir tivemos uma palestra fascinante dada por Jason Miller, um dos grandes membros e professor de vários cursos inclusive ligados a Hekate, sobre Revelações Pessoais e sobre técnicas de pesquisa para ajudar no nosso caminho. Após Miller, tivemos Caroline Wise e Carrie Kirkpatrick que nos trouxeram uma pequena palestra sobre navegar a pandemia enquanto bruxos e pagãos e um pequeno ritual, de oferendas a Hekate. Em penúltimo lugar, neste dia cheio de recursos, veio a palestra de Christina Moraiti que eu, pessoalmente, adorei. Estou familiarizada com o trabalho da Christina e fico muito contente por ter oportunidade de partilhar com outras pessoas o trabalho que está a desenvolver, em que está a reunir todos os museus, sites arqueólogicos e lugares onde haja representações de Hekate, pelo mundo fora, e condensar toda essa informação num Google Maps. Para terminar o dia, voltamos a Georgi Mishev que nos fala da ligação de Hekate com a Penísula Balcã e as suas tradições e histórias. Como podem ver, foi um dia muito recheado e cheio de informações! 

Domingo

 Neste dia estava planeado a celebração do Rito dos Fogos Sagrados para os participantes do Symposium, contudo, devido a dificuldades no agendamento dos participantes esta celebração foi reagendada para o dia 26 de Maio (quarta-feira a seguir) e neste dia acabamos por ter uma conversa sobre Devoção e o que significa a Devoção para vários participantes do Symposium, voluntários e membros do Covenant of Hekate. 

Opening Ceremony – Gio Diaz

African Hekate by Jack Grayle & Dearthrice DeWitt

The Orphic Melinoe by Karin Rainbird

A Guide to Grimoiring by Jake Stratton Kent

Hekate Ophioplokamos, Gorgo & Medusa by Mat Auryn

Hekate & Shakespeare’s Magic by Emily Carding

E, por fim, terminamos com um belíssimo ritual organizado pelo Sanctuary of Hekate Soteira em que foram feitas oferendas e agradecimentos à Senhora Hekate e, ao mesmo tempo, apresentada a nova estátua do Santuário. Foi um ritual belíssimo e muito emotivo, sem dúvida! 

Como foi o dia?: Domingo foi o último dia desta aventura e, apesar de termos tido algumas dificuldades técnicas ao longo do dia, não deixou de estar cheio de informações fantásticas e palestras fascinantes. Começamos, perto da hora de almoço em Portugal, com uma pequena conversa (na qual tive o prazer de participar!) sobre o que significa devoção e como é que manifestamos a nossa devoção a Hékate no nosso dia a dia e no nosso trabalho para as comunidades. Foi muito interessante ver a opinião e a forma como vários praticantes expressam o seu amor e dedicação à Senhora nos seus caminhos. Umas horas depois, após o almoço, começamos com uma cerimónia de abertura por Gio Diaz que foi belíssima e muito poderosa, a melhor forma de começar este domingo! A primeira palestra do dia foi de Jack Grayle e Dearthrice DeWitte sobre a presença de Hekate na África e na época do Egipto Romano, na antiguidade tardia, e acerca das suas tradições e práticas locais, foi fascinante ouvir esta palestra e, acima de tudo, as recitações de textos por parte de Dearthrice DeWitte! Logo de seguida passamos para Karin Rainbird que nos veio falar de sobre Orfismo e Melinoe, o que poderá ter sido um nome para Hekate dentro do Orfismo! Foi uma excelente palestra, recheada de conhecimento novo. A terceira palestra do dia foi da autoria de Jake Stratton Kent em que se falou sobre Grimoires e Hekate e a forma como pode ser desenvolvido o trabalho com Hekate e o trabalho de criação de Grimoires e outros instrumentos semelhantes. Após uma pequena pausa para refeição, voltamos com uma das palestras altas do Symposium da autoria de Mat Auryn onde aprendemos sobre a ligação entre Hekate e as Gorgons e a Medusa, os seus mitos e pontos onde se conectam e ficamos a saber um pouco mais sobre a forma como estas entidades podem ser exploradas em conjunto. E, para terminar em grande, tivemos Emily Carding que nos falou da presença de Hekate nos textos de Shakespeare e, devo dizer, foi um espanto descobrir todas estas conexões e presença de Hekate em vários textos do autor e nas suas histórias. Foi um verdadeiro abre olhos! Por fim, terminamos com o ritual organizado pelo Sanctuary of Hekate Soteira, que falei em cima. 

Conclusão: Sem me deixar influenciar pelo facto de ter tido a oportunidade de participar como voluntária neste evento, este evento foi simplesmente divinal. Foi um Symposium recheado de palestras, de informação, vários recursos disponibilizados no grupo de Facebook exclusivo para participantes onde houve possibilidade de interagir com os palestrantes e artistas que tiveram presentes e, claro, os vídeos e recursos ficam disponíveis para consulta após o evento para quem quiser rever. Foi, sem dúvida, uma experiência fantástica e mal posso esperar pelo próximo! 

E vocês? Foram? O que acharam? 


Hoje falaremos de uma das principais conceções erradas no que diz respeito à Deusa Hekate: a sua consideração como uma Deusa Tripla, no sentido de "Donzela/Mãe/Anciã", o chamado "MMC (Maiden, Mother, Crone"). É este conceito que pretendo desconstruir com este artigo.

Contrariamente à ideia popular, Hekate é uma Deusa tradicionalmente representada como sendo Deusa Virgem (à semelhança de Artemis). Vemos essa representação, por exemplo, na citação dos Oráculos Caldeus (para mais informação sobre Hekate nos Oráculos Caldeus, recomendo este episódio do Podcast da Caverna de Hekate):

“I come, a virgin of varied forms, wandering through the heavens, bull-faced, three-headed, ruthless, with golden arrows; chaste Phoebe bringing light to mortals, Eileithyia; bearing the three synthemata (sacred signs) of a triple nature. In the Aether I appear in fiery forms and in the air I sit in a silver chariot.” - Oráculos Caldeus

Também todas as representações que temos de Hekate, em estátuas ou pinturas, representam-na como uma jovem rapariga ou, quando com cabeça de animais, com o corpo de uma jovem rapariga. Em nenhum momento a Deusa Hekate é caracterizada como sendo uma "velha anciã".

A ideia de Hécate enquanto uma figura Anciã surge, curiosamente, pela mão de Aleister Crowley, já no início do séc. XX em vários dos seus livros e documentos. Como a Sorita d'Este cita no seu artigo Hekate's Profanation (que eu recomendo vivamente e considero leitura obrigatória para qualquer interessado na Deusa Hekate):

"Hekate is the crone, the woman past all hope of motherhood, her soul black with envy and hatred of happier mortals." - Aleister Crowley, no seu livro "Moonchild".

Esta representação de Hekate enquanto uma velha anciã, aliada ao conceito cada vez mais crescente, à época, de uma Deusa de três Fases (Donzela, Mãe e Anciã - para mais informação sobre o conceito de MMC, recomendo o meu artigo "A História da Deusa Tríplice"), levou a que Hekate ficasse, incorretamente, atribuída ao conceito de Anciã. Hekate, historicamente e mitologicamente, nunca foi uma Anciã, mas sim uma jovem rapariga (ou, se preferirem, uma "Donzela"). Contudo, o papel de Hekate como Donzela não é enquanto a Donzela famosa das tradições Wiccanas, mas apenas uma representação do facto de a Deusa ser representada como uma jovem menina ou mulher nas suas representações clássicas, à semelhança de outras divindades como Artemis ou Héstia. 

Apesar disto, Hekate é uma Deusa Tripla, ou seja, é representada como tendo três corpos/cabeças. Esta representação pode ocorrer como sendo três corpos humanos, como um corpo com três cabeças humanas ou como um corpo com três cabeças de animais (normalmente bois, cães, cobras, cavalos, etc.). Hekate não representa três Deusas diferentes ou três aspectos diferentes, como a Deusa Tríplice Wiccana, mas sim apenas a sua divindade, que é representada num corpo triplo. 

Para mais informações acerca da Deusa Hekate recomendo o meu artigo "Deusas e Deuses: Hekate" e também a visitarem o Covenant of Hekate. 
Título: Hekate Liminal Rites - A Study of the Rituals, Magic and Symbols of the Torch-Bearing Triple Goddess of the Crossroads
Autor(es): Sorita d'Este e David Rankine
Pontuação: ★★★★★
Descrição: Na encruzilhada da vida, morte e renascimento encontramos a Deusa Hékate. Honrada por homens, mulheres e Deuses os vestígios do seu culto antigo prolongam-se por milénios, dando pistas sobre a sua natureza e origens. Neste livro os autores utilizam diversas fontes históricas, criando uma obra que fornece um conhecimento das práticas mágicas e religiosas associadas a esta Deusa. Ao fazê-lo os autores criam um guia indispensável para quem pretende explorar os mistérios de Hékate hoje em dia.
Onde Comprar*: Avalonia | Wook
Crítica: Terminei de ler este livro na semana passada e fiquei sem palavras. É sem dúvida um livro fora do comum, não só pela sua própria estrutura mas também pelo seu conteúdo. Este não é um típico livro de Bruxaria em que temos exemplos práticos do que fazer, receitas organizadas e todo um guia de "como-fazer". Este livro é uma compilação de investigação história dedicada à Deusa Hekate e ao seu culto. A forma como Ela era adorada na Antiguidade, as suas lendas, as formas subtis como surge nas lendas e mitos, as suas sacerdotisas, os seus símbolos, a sua acção sobre os vários domínios, os filósofos que se dedicaram a Ela, a forma como o seu culto e a sua presença se misturam com outras culturas (cultura judaica, por exemplo), etc. Todo um conjunto de fontes históricas que criam uma majestosa imagem desta Deusa intemporal, mostrando-nos que mesmo com o passar do tempo e até com o surgimento de novas religiões (Judaísmo, Cristianismo, etc.), Hekate manteve a sua presença e o seu lugar honrado.

No livro contamos também com a indicação de vários Hinos (Hymns) e até feitiços e rituais utilizados na Antiguidade para o culto a Hekate e outras divindades que estabeleciam ligação com a mesma. E, o melhor na minha opinião, é que ao longo de todo o livro é dado indicação das citações, das fontes históricas e das origens de cada passagem. Este promenor, apesar de parecer algo simples, é essencial porque permite a visão da Deusa com base no seu culto antigo, no seu culto primordial. Para prestar culto a uma divindade devemos conhecer não só a própria Divindade em si e a forma como nos ligamos a Ela mas também é essencial conhecer a sua história, os seus mitos e os cultos que foram prestados à mesma. E este livro consegue exactamente isso! Recorrendo aos Papiros Mágicos Gregos (PGM), aos "Chaldean Oracles" e outras fontes da época os autores constroem toda a imagem de Hékate que é essencial para compreendemos esta Deusa.

Para todos os que prestam culto a Hekate, para os que a querem conhecer e para os interessados no culto das divindades gregas, este livro é um livro a não perder!

* Os links fornecidos pertencem a 'Affiliate Programs' e geram uma taxa de lucro ao Sob o Luar. Não existe qualquer despesa adicional para o comprador. 
Título: Keeping Her Keys: An Introduction to Hekate's Modern Witchcraft
Autor(es): Cyndi Brannen 
Pontuação: ★★★★☆
Descrição: Nos últimos anos, a Hekate ganhou popularidade crescente em todo o mundo. Embora existam livros escritos sobre Hekate do ponto de vista histórico, há uma falta de informação para aplicar este conhecimento no desenvolvimento pessoal e prática de bruxaria. "Keeping Her Keys" combina as 'chaves' do desenvolvimento pessoal, magia e a antiga deusa, Hekate Os tópicos incluem o poder da oração, como criar o espaço sagrado e orientação sobre feitiços. No capítulo final, os leitores podem realizar uma auto-iniciação opcional para se tornarem Keeper of Her Keys.
Onde Comprar*: Wook 
Análise: Tive a oportunidade de ler este livro numa cópia avançada, fornecida pela autora, em troca de uma crítica/análise honesta. 

Este livro é, sem dúvida, um livro especial. recordou-me um pouco o livro "Magia de Hecate: Uma Roda do Ano com a Rainha das Bruxas" de Dylan Siegel e Naelyan Wyvern, com algumas diferenças. O livro "Keeping Her Keys" tem como objectivo servir de guia de iniciação para uma tradição de Bruxaria Moderna voltada em torno da Deusa Hekate. Nesta obra podemos encontrar um companheiro para um período de treinamento de um ano e um dia, no final do qual, temos um ritual de auto-iniciação para iniciarmos o caminho como "Guide" nesta tradição.

O livro está dividido em diversas lições, cada uma delas essenciais para o desenvolvimento e aprendizagem dentro desta tradição. Conta com diversos exercícios e orientações ao longo do treinamento e, no final, antes da iniciação tem uma série de perguntas para confirmar se o conhecimento e dedicação do devoto estão no ponto para dar este grande passo.

Uma coisa que eu gostei muito neste livro, e acho que é raro de ver hoje em dia, foi o foco na informação histórica. A autora não quis deixar de parte as informações históricas, as fontes e todos os recursos que temos ao nosso dispor, vindos da Antiguidade Clássica. Pelo contrário, a autora apresenta-nos essas informações e as suas fontes e origens, mostrando-nos como as mesmas eram interpretadas à época ou, em outros casos, fornecendo livros que ajudam a entender essa interpretação. Porém, a autora também não descrimina as práticas modernas, aliás, mostra como ambas as partes podem coexistir com o objectivo de criar uma tradição harmoniosa.

Uma das citações que mais gostei do livro foi "(...) we aren't attempting to reconstruct the past, but we adapt historical documents and practices for use in the 21st century". Acho que esta frase descreve bem o que a autora conseguiu com este livro e dou os meus parabéns por isso.

O livro encontra-se muito bem estruturado, de fácil compreensão e muito acessível, permitindo em diversas situações que sejam improvisadas formas de realizar os exercícios ou rituais, aceitando que as coisas e eventos possam ser adaptados à prática de cada indíviduo, porém, sem nunca descuidar da estrutura da tradição e da prática estabelecida.

Esta obra é um excelente companheiro para qualquer interessado em seguir um caminho solitário, porém previamente estruturado, de culto à Senhora Hekate e baseado nas práticas da Bruxaria Moderna.

* Os links fornecidos pertencem a 'Affiliate Programs' e geram uma taxa de lucro ao Sob o Luar. Não existe qualquer despesa adicional para o comprador. 

O Covenant of Hekate é uma comunidade internacional de homens e mulheres que honram a Deusa Hekate nas suas várias formas, vindos de várias tradições e culturas unindo-se no culto à Deusa como "Soteira" e "Axis Mundi". 

Esta comunidade nasceu como parte do rito "Rite of Her Sacred Fires", um ritual realizado a nível internacional em honra de Hekate na Lua Cheia do mês de Maio que conta com centenas de participantes em todos os anos. Informações sobre o ritual podem ser encontradas aqui sendo que existe até a versão em português! 

Esta comunidade aceita novos membros mediante a aceitação dos três objectivos da comunidade:
  1. Estabelecer uma sociedade internacional através da qual a história e mistérios da Deusa Hekate são estudados, explorados e partilhados.
  2. Para cada membro lutar para atingir o seu máximo potencial em tudo o que são e em tudo o que aspiram a ser.
  3. Para lutar para que todas as pessoas sejam tratadas de forma igual e justa com base no Código de Conduta.

O Código de Conduta também se encontra disponível no site do Covenant para consulta e, após concordar com todos os critérios obrigatórios (presentes e disponíveis no site oficial), é preenchido um formulário e basta aguardar contacto para dar seguimento. 

O Covenant of Hekate está presente em vários sites sendo que podem consultar o Site Oficial e ainda encontrar o Covenant no seu Grupo de Facebook e Página de Like de Facebook. 

Hoje vamos falar do conceito da Deusa Tríplice e da sua História, aproveitando para eliminar algumas ideias incorretas que existe em torno desta divindade. Antes de mais, gostaria de deixar claro que não estou a invalidar o culto da Deusa Tríplice, pelo contrário, é uma Divindade de extrema importância em vários caminhos pagãos, como é o caso da Wicca, e é uma divindade com a qual tive contacto durante vários anos. Contudo acho necessário esclarecer estas informações e fornecer recursos em Português sobre este assunto. Quando falamos destas temáticas devemos sempre recordar que idade =/= validade. O facto de algo ser antigo não significa que é mais, ou menos, válido do que práticas recentes. 

A Deusa Tríplice é um conceito de divindade em que a mesma é constituída por três faces: Donzela, Mãe e Anciã. Esta divindade, ou trio de Divindades, é representativo das "fases" da vida de uma mulher começando pela face de Donzela, onde assume o papel de uma jovem rapariga antes do seu casamento; a face de Mãe, onde é assumido o papel maternal após o casamento e após ter tido filhos e, por fim, a fase de Anciã onde assume a faceta de uma velha sábia, com os seus filhos crescidos e a aproveitar o que a sabedoria dos anos de vida lhe trouxe. É normal associar também cada uma das faces a um leque de divindades politeístas tal como Artémis para a faceta de Donzela ou Cailleach como Anciã. 

Apesar de, na Antiguidade Clássica, termos alguns exemplos de divindades Triplas, como é o caso de Hekate ou das Kharites, não temos qualquer registo de uma divindade se dividir em várias fases da vida de uma mulher. Hekate, uma Deusa bastante associada a este conceito de Deusa Tríplice é, na realidade, uma Deusa associada ao que seria o conceito de "Deusa Virgem", ou seja, uma Deusa que não é casada nem tem filhos. Temos registos de várias divindades agrupadas em grupos de três, ou mais, em vários textos tal como é o caso de Hekate-Selene-Artémis ou, até, o famoso trio eleusino de Hekate-Demeter-Persephone, contudo, estes grupos não faziam uma distinção entre as "fases" das Divindades mas eram sim agrupadas pelas suas características e mitos, como é o caso do trio Hekate-Demeter-Persephone que foi agrupado no seguimento do Mito de Persephone, contando no Hino Homérico a Deméter. 

O conceito de uma divindade singular, dividida em três fases, terá surgido com o trabalho de Jane Ellen Harrison, em meados de 1800s. O seu trabalho era baseada na permissa que, antes da Era da Bronze, existiria uma sociedade matrifocal e matriarcal. Esta teoria veio a ser mais explorada por autores como Robert Graves e Marija Gimbutas, tendo sido descreditados pela comunidade científica variadas vezes. Robert Graves e Marija Gimbutas foram duas das personalidades que deram origem a um boom deste conceito dentro das comunidades pagãs e new-age sendo que, ainda hoje em dia, é defendida a teoria de uma cultura matriarcal proto-europeia, apesar de não termos registos históricos que suportem de forma adequada esta teoria. 

Apesar de o conceito de uma divindade tripla como sendo Donzela/Mãe/Anciã ter apenas tido o seu boom em 1800s/1900s, o mesmo não deixa de ser válido nem de ser uma parte importante destes caminhos religiosos, sendo que a mesma foi absorvida por vários caminhos pagãos, como é o caso da Wicca ou do Neo-Paganismo Eclético, . O próprio Jung, o pai da psicologia analítica, utilizou o arquétipo da Deusa Tripla nos seus trabalhos e análises, mostrando o impacto que a mesma teria na psique humana, após o seu desenvolvimento. E, se a mesma foi aceite e recebida de forma tão calorosa por tantos praticantes, é porque terá validade da sua existência. Como disse anteriormente idade =/= validade, contudo, é preciso ter em atenção a sua origem e a sua criação e não nos deixar cair em fálacias incorretas ou baseadas em desinformação. 

Este artigo tem como objetivo esclarecer o conceito errado de que a "Deusa Tripla é uma Deusa Antiga Europeia" que, na realidade, não o é. Isto não faz da Deusa Tríplice uma Divindade menos válida, contudo, necessitamos de conhecer a sua história e surgimento de forma a puder honrar da melhor forma. Para interessados nesta temática recomendo vivamente lerem o Triumph of the Moon de Ronald Hutton (o link está abaixo na lista das fontes utilizadas) dado que este livro tem todo um capítulo dedicado à temática da Deusa e do culto da Deusa Tripla nos últimos 200 anos. 

E vocês? Já conheciam estas informações? 

Fontes: 
"The Triumph of the Moon: A History of Modern Pagan Witchcraft" de Ronald Hutton
"Circle For Hekate - Volume I: History & Mythology" de Sorita d'Este
"Triple Goddess (Neopaganism)" na Wikipedia

Crédito de Imagem: Pixabay (Amber Avalona)

Olá a todes!

Gostava de partilhar que vou estar presente num evento em Março, chamado "Feira do Ocultismo e Esoterismo". Vou ter o prazer de dar uma palestra entitulada "Desmistificar a Senhora das Encruzilhadas: Quem é Hekate?" onde planeio falar acerca da Senhora Hekate, os seus mitos e desmistificar algumas ideias erradas a seu respeito, principalmente relacionada com a ideia de Hekate como Deusa Anciã, Hekate como Deusa Triplice (Donzela/Mãe/Anciã) e outras questões que surgem frequentemente nas redes sociais. 

Vou ter também a honra de estar acompanhada de várias pessoas fantásticas, cujo trabalho recomendo imenso como a Mora Sininho Rosa, a Joana Martins, a Mariana Vital, o Karagan Griffith, a Amala Oliveira, entre outros. 

O evento vai contar também com uma feira e vários workshops ao longo dos dois dias. Os workshops e as palestras requerem inscrição e pagamento, e podem inscrever-se através deste link.

Espero ter a oportunidade de vos ver por lá! 💖

Bênçãos Plenas,
Alexia Moon 

Unsplash (Heather Mckean)

O tópico de hoje é inspirado num vídeo da TCS sobre "Deuses de Prateleira", um tema que adquiri após ouvir eles falar e ver o vídeo deles em 2015 e que tem vindo a fazer parte do meu vocabulário e que acho importante refrescar a memória sobre ele. Aconselho também a verem o vídeo deles e os restantes vídeos que fazem parte do canal, porque são excelentes recursos. 

O que são, então, Deuses de Prateleira? O nome de Deuses de Prateleira vem do facto de que muitos praticantes, principalmente quem está a começar no caminho, tem tendência a ver os Deuses como ferramentas para determinados objetivos e a colocar os mesmos dentro de caixinhas como "Deusa do Amor", Deus da Guerra", Deusa do Casamento", "Deusa da Vida Selvagem", etc. Esta simplificação das divindades leva a que os mesmos sejam vistos apenas como meras ferramentas e não como divindades inteiras com mitos, características, personalidades, etc. 

Isto faz com que, muitos praticantes, quando estão a iniciar as suas práticas acabam por utilizar diversos Deuses para certos rituais e feitiços. Ou seja acabam por usar os Deuses como se eles fossem frascos numa prateleira. Para feitiços de amor chamam Afrodite, para feitiços de sabedoria chamam Atena e por aí fora, dependendo da sua necessidade, chamando pela divindade única e exclusivamente para aquele trabalho, descartando todas as outras suas características e até o respeito pela própria divindade em si. 

Ao trabalharmos com uma divindade a longo prazo, seja a nível de um Sacerdócio ou até a nível meramente devocional, estamos a estabelecer uma relação com aquela divindade e essa relação vai além das suas características. Ou seja, Hekate pode ser uma Deusa ligada à Magia, aos Caminhos, às Encruzilhadas e aos Portões (entre outros) e não ter qualquer relação com o campo amoroso ou com o campo das relações amorosas. Contudo, como devota de Hekate, nada me impede de recorrer à divindade com a qual tenho uma melhor e maior ligação para pedir auxílio no campo amoroso. Os Deuses não podem ser limitados pelas suas características nem devem ser vistos como apenas ferramentas para um determinado propósito. Não só estabelece uma péssima relação com as divindades mas também uma falta de respeito para com os mesmos. 

Vejamos neste prisma: Temos um amigo que é informático. Mas ele é nosso amigo, certo? Não recorremos a ele apenas para questões de informática. Não colocamos os nossos amigos ou familiares em caixas dependendo das suas habilidades ou profissões de forma a que possamos recorrer aos mesmos dependendo do que necessitamos. Claro que podemos pedir ajuda aos mesmos, mas não vamos apenas chegar ao pé deles, sem estabelecer qualquer tipo de relação ou amizade, e pedir coisas pois não? Se temos um primo que é médico mas com quem não falamos à anos (ou até, com quem nunca falámos) não vamos correr ter com esse primo à mínima dor no joelho pedir ajuda e depois desaparecer sem voltar a referir palavra, certo? O mesmo ocorre com os Deuses. 

Não podemos correr as divindades como se fossem Deuses de Prateleira, apenas recursos a ser utilizados e descartados quando já não há necessidade dos mesmos. Devemos vê-los como entidades e divindades inteiras, com as suas características, personalidades, correspondências, mitos e história e respeitá-los. honrá-los e trabalhar ou dedicar àqueles com os quais nos sentimos mais ligados e realizar trabalho com essas divindades. Não significa, é claro, que para coisas específicas não possamos pedir ajuda a divindades com as quais não temos uma relação tão frequente. Nada disso! É claro que podemos alargar os nossos horizontes para outras divindades fora do nosso círculo pessoal, contudo, devemos fazê-lo com respeito e conhecimento e não apenas como quem vai buscar as especiarias ao armário e volta a colocar no sítio, esquecendo-se que elas existem. 

E vocês? Qual a vossa opinião? 
Unsplash (Ali Inay)
A alimentação é um dos pontos principais do nosso dia-a-dia, é o que nos fornece energia para funcionarmos e fazermos as nossas tarefas e é também uma fonte de prazer e lazer, através da experiência de novos pratos e sabores. Como tal, é natural que a alimentação tenha um papel importante no nosso quotidiano e, correspondentemente, na nossa prática e caminho mágico. 

Sabem que eu tenho uma paixão muito grande por Bruxaria de Cozinha e hoje gostava de vos falar sobre como a alimentação pode ter impacto na nossa prática pagã e como podemos trabalhar com a nossa alimentação e com o que consumimos, para melhorar a nossa prática e o nosso bem-estar. O nosso bem-estar está intrinsecamente conectado à nossa prática e caminho pagão. Se não nos estivermos a sentir bem não vamos conseguir concentrar-nos no que estamos a fazer e aplicar a nossa energia naquele trabalho, seja um ritual, um feitiço ou até uma meditação. E a alimentação é uma chave para atingirmos o nosso bem-estar. 

Como Bruxos e Bruxas reconhecemos a importância que as plantas e as frutas têm na magia e na prática mágica. Sabemos que o alecrim é uma boa planta para limpeza de locais e que a maçã está associada ao amor, tal como a canela está associada à prosperidade. Usamos estes ingredientes em saquetas mágicas, incensos, banhos, oferendas e até para untar velas. Estas correspondências são partes activas de muita prática mágica e, como tal, porque não incluir as mesmas nas nossas refeições? Se organizarmos a nossa comida e refeições de forma consciente e tendo em consideração estas correspondências mágicas estamos a influenciar a nossa comida e, consequentemente, a nossa nutrição e o nosso corpo, magicamente.

Isto pode ser aplicado em vários cenários, por exemplo:

Devoção e Conexão com Divindades: Uma das formas de nos conectarmos com uma divindade pode ser através de conexão com as suas correspondências, incluindo as alimentares. Algumas das associações da Deusa Hekate, por exemplo, são a cebola e o alho. Estes dois alimentos podem ser incorporados, conscientemente, numa alimentação diária (de forma moderada) com o intuito de aproximar a nossa prática a Hekate, através do consumo (ou até oferendas, criando pratos ou alimentos com estes produtos) de alimentos relacionados com a divindade.

Trabalhos Mágicos: Há vários trabalhos mágicos que podem ser feitos com a Magia de Cozinha. Imaginemos que queremos atrair para a nossa vida um novo amor. Uma das formas de fazer isto pode ser, por exemplo, criar uma Dieta Mágica. Uma Dieta Mágica é uma dieta alimentar (equilibrada e consciente) criada com alguns alimentos em mente. Por exemplo, no caso da atração de um novo amor, podemos fazer pratos com alimentos que estejam associados ao amor como baunilha, canela, gengibre, batata doce, maçãs, bananas, maracujás, morangos, mel, entre outros. São muitos os alimentos que estão associados ao amor o que nos permite criar refeições equilibradas, saudáveis e mágicas. Não é obrigatório utilizar todos os ingredientes, como é óbvio! Podemos fazer uma tarte de maçã para sobremesa, uma sopa com batata doce e outros vegetais para o prato principal ou bifes com molho de mel e mostarda, etc. A Bruxaria de Cozinha está totalmente aberta para a nossa imaginação. 

Cuidados Próprios: Cuidar de nós próprios é uma das nossas "obrigações" e formas de nos respeitar a nós próprios e ao nosso corpo. Podemos criar uma Dieta de Auto-Cuidado e esta pode incluir não só alimentos relacionados com amor e amor próprio mas, também, os nossos ingredientes favoritos! Se eu amo comer cenoura ou grão mas os mesmos não estão associados ao amor/amor próprio, não faz mal! O facto de serem alimentos favoritos da Bruxa/Bruxo já lhes traz o poder de trazer conforto pessoal e, como tal, contribuir para os cuidados próprios. É preciso ter também em consideração estes pequenos detalhes como comidas favoritas ou comidas conforto, dado que as mesmas já têm poder mágico associado a nós, devido ao seu impacto. Se calhar a receita de sopa de legumes da nossa avó será muito mais poderosa para nos trazer conforto e tranquilidade do que uma receita complexa tirada de um livro de bruxaria e isto é totalmente válido (e aliás, muito recomendável!). Temos de encontrar o nosso poder pessoal, até na cozinha.

A Bruxaria de Cozinha e a magia com os alimentos é um tipo de magia muito fácil e intuitiva, que pode ser integrada na nossa rotina de forma muito simples e adaptável, permitindo-nos trazer para o nosso quotidiano a Magia da nossa prática.

E vocês? Como gostam de usar a Magia na Cozinha? 

O Ritos dos Fogos Sagrados de Hékate é uma celebração internacional em honra da Deusa Hékate, senhora dos Mistérios e da Magia.  Esta celebração nasceu da antologia "Hekate: Her Sacred Fires", um projecto escrito por Sorita d'Este e outros devotos de Hékate. Ao longo dos anos, após a primeira celebração em Maio de 2010, esta celebração foi traduzida em diversas línguas (actualmente já foi traduzida em mais de 25 línguas) e centenas, se não milhares, de pessoas celebram este rito tornando-o uma celebração anual na Lua Cheia de Maio.

Actualmente este rito é organizado anualmente e é facilitado por vários membros do Covenant of Hékate que dedica o seu tempo e energia para garantir que todas as informações se encontram disponíveis para que os praticantes possam aprender e participar nesta celebração anual.

O rito encontra-se disponível em Português e pode ser celebrado em grupo ou individualmente.

Recomendo, sem dúvida, a participação no Grupo de Facebook do Rite of Her Sacred Fires (em inglês) no qual podem esclarecer dúvidas sobre o ritual e até encontrar práticas e rituais abertos na vossa zona (existem vários no Brasil, recomendo sem dúvida visualizar no grupo onde se irão realizar!).

Ao final de cada ritual, todos os anos, são compiladas fotos de altares, rituais e celebrações do Mundo inteiro e é feito um vídeo que é disponibilizado no Youtube. Podem ver os vídeos dos anos anteriores através deste link e talvez tirar inspiração para a realizar do vosso próprio rito.

Para mais informações acerca da celebração do Rito dos Fogos Sagrados de Hékate devem sempre consultar a página oficial do Covenant of Hekate.

Hoje vamos continuar com a nossa série de artigos onde abordamos as divindades. Vamos falar sobre os seus mitos, as suas associações e um pouco da sua história. Estes artigos não têm como objectivo substituir a investigação sobre as divindades mas sim despoletar interesse e, também, fornecer alguns pontos de partida para iniciar contacto com as Deusas e Deuses de que falaremos. 

As informações contidas nestes artigos não são suficientes para sustentar uma prática de culto a uma divindade e investigação adicional é sempre necessária. No fundo de cada artigo deixamos uma lista de sites e livros recomendados sobre cada divindade, de forma a que possam explorar mais sobre cada Deusa e Deus que falamos aqui. Ao longo do artigo vamos deixando também links para informações adicionais e explorações aprofundadas de certos tópicos. 

E, tal como deve ser, a Deusa que irá ser a segunda desta série de artigos será uma das Deusas à qual me dedico e me consagrei, a Senhora Persephone. 


***

Nome: Persephone. Περσεφονη em grego. Enquanto Deusa da Primavera, junto de sua mãe Démeter, era denominada de Kore (Donzela) mas após a sua união com Hades, no Submundo, assumiu o nome de Persephone. A origem do nome é desconhecida, porém, é habitualmente associada ao significado de "Destruição". 

Panteão: Grego


História e Mitologia: A Deusa Persephone (ou Kore, como era conhecida antes do seu matrimónio com Hades) é filha de dois Deuses Olímpicos, a Deusa Démeter e o Deus Zeus. Era denominada de Kore dado a sua ligação à Natureza e à beleza e riqueza dos campos floridos. Filha de Demeter, Deusa das Colheitas e da Agricultura, a mesma passava os seus dias em campos floridos a brincar e passear com ninfas e outras Deusas virgens até que, um dia, foi raptada pelo Deus Hades e levada para o Submundo, com autorização do seu pai Zeus mas com total desconhecimento da sua mãe Demeter. A sua mãe, Deusa das Colheitas, aflita com o desaparecimento da filha decidi começar a percorrer o Mundo em sua procura, pedindo ajuda à Deusa Hekate que com as suas tochas, iluminou o caminho de Démeter. Quando soube, graças à ajuda de Hekate e Helios, que a sua filha tinha sido raptada pelo Senhor do Submundo, foi até Zeus e exigiu a filha de volta, ameaçando deixar o Mundo num eterno inverno e sem permitir que os frutos e as plantas florescessem. Confrontado com esta situação, Zeus viu-se obrigado a enviar Hermes até ao Submundo e pedir para Hades devolver a sua amada de volta a Demeter. Porém Persephone já tinha comido sementes de romã no Submundo (é ambíguo se as mesmas foram comidas de livre vontade ou oferecidas por Hades) e, como tal, estava eternamente ligada ao mundo dos Mortos. Ao chegar ao Olimpo e quando os Deuses constaram a sua ligação eterna a Hades, ficou decidido por Zeus que a Deusa Persephone teria de passar uma parte do ano com a sua mãe Demeter e outra parte do ano com o seu esposo, no Submundo. Este mito veio dar origem à explicação da passagem das estações, com o Inverno sendo quando a filha de Demeter está junto ao seu esposo e a Primavera quando a mesma está perto de sua mãe. Noutros mitos, Persephone surge também junto a Hades, já no Submundo, como sendo a Rainha e Senhora da Terra dos Mortos, sendo que foi a pedido da mesma que os Campos Elísios foram criados, para receber os heróis gregos no pós-vida. 

Celebrações: Uma das principais celebrações em honra a Persephone são os Mistérios de Elêusis, celebrados em dois momentos distintos (os Mistérios Menores e os Mistérios Maiores). Eram celebrados na zona de Eleusis na Grécia Antiga e são das celebrações mais bem guardadas da História, sendo que até hoje são poucos os registos que temos desta prática. Sabemos que os mesmos eram realizados em torno do Mito do Rapto de Persephone e que tinham como foco a agricultura e os ritmos da Natureza. Adicionalmente temos também a celebração da Thesmophoria que era um festival organizado em honra a Démeter e Persephone onde apenas eram permitidas mulheres adultas e cujas práticas eram igualmente secretas. Estaria associada à colheita e tinha lugar anualmente perto da altura do Outono. Existem mais celebrações locais espalhadas pela Grécia e que até acabaram por se prolongar até ao período Romano e podem ser consultas em documentos históricos, no Theoi, entre outros.

Geneologia: Persephone é filha da Deusa Démeter e do Deus Zeus. É filha única e muito protegida por Deméter. É casada com Hades, Senhor do Submundo, e, em alguns mitos, é considerada mãe de Zagreus (com Zeus ou com Hades). Nos Hinos Órficos é também referida como sendo mãe de Melinoe (com Zeus) e das Erínias (com Hades). 

Epítetos: Chthonia ("Ctónica", "da Terra"), Despoina ("Senhora"), Kore (Donzela), Soteira ("A Salvadora"), Brimo ("Assustadora"/"A Zangada"), Enodia ("Dos Caminhos", "Das Encruzilhadas"), entre outros. 

Símbolos: Romã, Cavernas, Morcegos, Tocha Eleusina, Trigo, Narciso, Menta, Asfódelo, símbolos primaveris e flores, entre outros.  

Leitura Recomendada: 
  • Theoi - Persephone (website)
  • Homeric Hymn to Demeter
  • Callipe Sings of Ceres, Pluto and Proserpine
  • Fontes Adicionais
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Unsplash (Marcelo Matarazzo)
Hoje quero partilhar convosco sobre o que é um Sacerdócio aos Deuses. Existem vários tipos de Sacerdócios e dentro de várias tradições e cada um deles tem a sua especificidade. Existe Sacerdócio dentro da Wicca Tradicional onde cada praticante é iniciado e torna-se Sacerdote ou Sacerdotisa dos Deuses, podendo depois passar por vários graus para aumentar e aprimorar o seu conhecimento e o seu caminho. Existe Sacerdócio no Culto à Deusa e em várias tradições associada ao Culto da Deusa e, inclusive, em diversas organizações mundiais como a Fellowship of Isis ou o Glastonbury Goddess Temple. Existe Sacerdócios dentro de Tradições privadas ou dentro de organizações e caminhos específicos dentro do Paganismo em geral. Cada um destes Sacerdócios é diferente do outro porque cada um exige do iniciado um grau de dificuldade ou um conjunto de características e obrigações diferentes. Porém nenhum deles é menos válido do que o outro. Todos os Sacerdócios são válidos. Este é um dos pontos que quero começar por frisar. Um Sacerdote Wiccano não é menos ou mais do que um Sacerdote pela Fellowship of Isis. Apenas são Sacerdotes diferentes e com metodologias de trabalho e focos de trabalho diferentes. 

Neste caso eu posso apenas falar no meu Sacerdócio. Recentemente fui consagrada como Sacerdotisa de Hekate e Persephone pela Fellowship of Isis e iniciei o meu trabalho de Sacerdotisa com o meu Iseum (ICT - Iseum do Caminho da Terra). E irei partilhar convosco o que é, para mim, um Sacerdócio aos Deuses. 

Na minha opinião e experiência, um Sacerdócio aos Deuses é, acima de tudo, um Serviço. Colocamo-nos ao Serviço dos Deuses e como seus "representantes" no caminho. As nossas acções e os nossos métodos de trabalho irão reflectir aquelas Divindades. Recordam-se quando, em tempos antigos, existiam os Templos dedicados às Divindades onde várias mulheres e homens dedicavam o seu dia-a-dia ao trabalho do templo, à manutenção do templo, à ajuda de quem precisasse, aos rituais diários, etc? Essa é, para mim, a imagem de um Sacerdócio. A devoção da vida e do serviço aos Deuses. O meu trabalho, enquanto Sacerdotisa, é o de manter as chamas dos altares das Deusas acesas e garantir que Elas nunca são esquecidas enquanto os meus pés estiverem sobre a Terra. É garantir que lhes presto Culto e Serviço e que dedico o meu trabalho e o meu esforço a Elas. Este trabalho e serviço pode ser feito de diversas formas, dependendo da divindade à qual juramos Sacerdócio. 

Uma Sacerdotisa de Athena, por exemplo, poderá querer ser professora ou mentora e ajudar na Educação do seu país e comunidade. Um Sacerdote de Poseídon poderá dedicar-se à Conservação dos Mares e Oceanos com trabalho de voluntariado ou académicos. Uma Sacerdotisa de Hekate poderá dedicar-se à Psicologia e auxiliar pessoas no processo de cura pela morte de familiares ou conhecidos. Existem diversas formas de exercer este tipo de Serviço aos Deuses e, a forma como o fazemos, deve ser estabelecida por nós e pela Divindade. Apesar do Sacerdócio ser, por norma, transmitido por outra pessoa já consagrada e já em Sacerdócio, a relação com as Divindades é um dos pontos fulcrais. Não podemos ser Sacerdotisas e Sacerdotes sem que seja estabelecida uma ligação directa com a Divindade e, dessa forma, obtermos a informação a partir dos mesmos (através dos meios que acharmos melhor e mais adequados). E, é aí, que devemos decidir qual será o método do nosso Serviço. 

Para mim o Sacerdócio aos Deuses é algo para a vida. Não é uma decisão a ser tomada de forma leviana. Já ouvi compararem um Sacerdócio a uma tatuagem, que é permanente porém acho que seja ainda mais permanente do que isso! Uma tatuagem, hoje em dia, é possível de ser removida. E, para mim, um Sacerdócio não é algo que se remova ou que se decida parar. Para mim, na minha experiência e opinião, um Sacerdócio é algo que nos acompanha para sempre, nesta vida e nas próximas. É uma marca na alma, eterna e permanente. 

O meu maior conselho a quem quer seguir um Sacerdócio aos Deuses é paciência. Se o que querem é um Sacerdócio, algo para a vida, esperar não pode ser problema. Paciência e esperar, estudar, treinar, decidir, pensar, meditar. Uma decisão destas não deve nem pode ser tomada de ânimo leve. No meu caso, apesar de ser um sonho desde os meus 12 anos (altura em que conheci pela "primeira vez" o Paganismo) demorei cerca de 13 anos a tomar a dar o passo e a iniciar o meu treinamento. Não tenham medo de esperar nem queiram apressar pois os votos são eternos e a eternidade é um período muito longo, o que não falta é tempo!

 A todos os que querem trilhar o caminho para o Sacerdócio, deixo a mensagem: O trilho não será fácil. Será como entrar descalços numa floresta ao anoitecer sem lanterna e sem defesas e navegar a mesma até ao outro lado, até ao nascer do céu. Vai doer, vai ser lindo, vão chorar, vão rir, vão mudar, vão rever memórias cruéis e memórias felizes, vão abrir feridas que nunca sararam e vão curar-se. Será uma experiência inesquecível, dolorosa e transformadora. Vão sair da floresta como pessoas novas, como sobreviventes, como Sacerdotes e Sacerdotisas. Não é um trilho para todos, tal como nem todos temos vocação para padres católicos ou rabinos judeus. Mas para quem sente o Chamado e sente a vontade de Serviço e de Devoção aos Deuses Antigos, será a viagem de uma vida e uma transformação que nem a de uma borboleta. 

A todos os meus irmãos e irmãs Sacerdotes e Sacerdotisas: Saúdo-vos! Agradeço e Honro o vosso Trabalho e Devoção e que possamos sempre Servir os Deuses Antigos nesta e nas próximas vidas! 

E para vocês? O que é um Sacerdócio aos Deuses? 
Unsplash (Raw Pixel)
O artigo de hoje é voltado para um tópico importante e será um assunto de conversa ao longo do mês de Novembro: Os Cuidados nas Comunidades Pagãs contra os Abusos. Infelizmente todas as comunidades, sejam do que for (jogos, livros, religião, estudo, etc) acabam por, a longo prazo, sofrer dificuldades e ter problemas. E as comunidades pagãs não são diferentes. Temos dramas, confusões, discussões, pessoas boas, pessoas más, tal como todas as outras comunidades. Não somos diferentes nem mais especiais que os outros e, como tal, estes são assuntos que se tornam parte do quotidiano nas comunidades. 

Quero falar-vos, principalmente para quem está a dar os primeiros passos nas comunidades, sobre os cuidados que devemos ter para evitar cair em situações indesejáveis. Este tópico é especialmente sensível para mim, dado que também já fui vítima de uma destas situações. Infelizmente ninguém está imune e pode acontecer a qualquer um. O primeiro passo é, tal como tanta outra coisa na vida, não pensar que "só acontece aos outros" e manter-nos alertas e atentos aos sinais "vermelhos" de perigo. Muitos dos conselhos que vos vou dar são conselhos que gostariam que me tivessem dado a mim e, acima de tudo, que eu os tivesse cumprido. 

E, a quem já passou por isto e, como eu, soltou-se e sobreviveu: Não pensem mal de vocês mesmos. Não se culpabilizem, não se condenem a vós mesmos. Todos somos humanos e todos cometemos erros. Temos que aprender com os erros, entender o que poderíamos ter feito melhor ou de alternativa, ajudar quem esteja numa situação parecida aquela em que estivemos e, acima de tudo, perdoar-nos a nós mesmos. 

A quem está a passar por isto: Não tenham medo de sair ou de parar o que estão a fazer. Independente do que vos digam, das ameaças, das tentativas de controlo e de todas as formas que podem tentar controlar-vos. Apesar de parecer muito mau neste momento e de parecer que não há saída nem vida sem esse aspecto negativo: É mentira. Há sim e é linda e fantástica e vale a pena. Não tenham medo de lutar pela liberdade das vossas vidas e de seguirem o que querem, independentemente da opinião ou tentativas negativas de outras pessoas. Peçam ajuda a amigos, familiares, etc. E tudo se resolverá! 

Se precisarem de alguém para falar, o ICT disponibiliza auxílio e conselhos (100% anónimos) para situações destas através do e-mail ict.caminhodaterra@gmail.com. Temos também o Ecos - Comunidade Pagã que conta com vários sacerdotes e devotos pagãos que estão ao dispor para ajudar e orientar quem precisa através do endereço de e-mail deles que é o  contactocomunidadepagaeda@gmail.com. Não tenham medo de contactar e de pedir ajuda. Estamos todos cá para isso!

Quanto aos conselhos que tenho a dar neste artigo:

  • Não tenham medo de dizer NÃO. 
O primeiro e, creio eu, mais importante conselho é: Não tenham medo de fazer perguntas, de se impor e, acima de tudo, de dizer "Não". O não, para mim, é das palavras mais importantes do vocabulário, principalmente quando lidamos com comunidades e com outras pessoas. Se o que vos é proposto (pertencer a um grupo de estudos, a um coven, realizar um ritual, etc) não vos satisfaz a 100% não participem. Se for 99% e aquele 1% estiver na dúvida, não façam. Se algo vos deixa desconfiado, se não gostam da energia da pessoa que está a propor, se não está dentro dos vossos objectivos, se não se sentem confortáveis, etc... Não participem. Não se convençam a vós próprios a participar só porque traz vantagens a longo prazo, só para dizer que já tiveram essa experiência, só para obter aquele pequeno conhecimento dali e seguir em frente. Nada disso vale tanto como o vosso conforto e a vossa integridade. Participar num ritual pode parecer a coisa mais simples e pequena do Mundo mas abre precedentes para muita coisa. Cenário que todos conhecemos: Convidam-nos para X, não queremos muito mas aceitamos. Da próxima vez convidam para Y. Dizemos que não mas somos confrontados com as questões "Mas da outra vez participaste, é a continuar do que fizemos antes, é tão simples como o anterior, etc" e acabamos por sofrer a pressão e usar os mesmos argumentos para nós mesmos da mesma vez. E o ciclo vicioso inicia-se e, quando damos por nós, já fizemos coisas que não queriam, já tomamos decisões que não estavam nos nossos planos e estamos demasiado envolvidos para sair sem problemas.  Participar num ritual implica, também, troca de energias. Num ritual existe um fluir energético de todos os participantes. Enquanto nos rituais públicos existe, por parte do organizador, uma forma de manter e harmonizar essa troca de energias, em rituais pequenos nem sempre há isso. Se não nos sentimos confortáveis com a energia do organizador ou a energia de alguns participantes para quê participar e trocar energias com essa pessoa? Não! Não tenham medo de dizer não e de se impôr. 


  • Não aceitem iniciações com as quais não se identifiquem
Outro problema que também, infelizmente, é comum nas nossas comunidades é o tema da iniciação. Ser convidados para ser iniciados em grupos e covens e tradições com as quais podemos até nem ter interesse total mas gostaríamos de ter a experiência, de aproveitar o conhecimento, de obter o "título" e qualquer outro motivo que possamos achar que temos, para além do "esta tradição ou caminho é aquilo com que me identifico e o qual quero seguir". Se o motivo para serem iniciados não for o que mencionei anteriormente e não tiverem conhecimento total do que está a acontecer e Perfeita Confiança em quem está a iniciar-vos... Não o façam. Sei que o termo "Perfeito Amor e Perfeita Confiança" pode parecer demasiado "fofinho" e apenas associado à Wicca mas, na realidade, é um conceito importante principalmente a parte da Confiança. O nosso iniciador ou iniciadora são pessoas que ficarão ligados a nós para a vida inteira, serão como mães e pais para nós. Vão dar parte do seu "DNA Mágico" para nós, ligando-nos eternamente a eles. Porque motivo vamos deixar alguém que não confiamos iniciar-nos? Não é correcto nem faz sentido e só nos prejudica a nós mesmos, seja em que tradição for. Se têm interesse ou receberam convites para serem iniciados façam o seguinte: Investiguem a tradição ou o caminho em causa, saibam o máximo que conseguirem (externamente) sobre a tradição, vejam se é algo que vibra convosco, conheçam as pessoas da Tradição e os Iniciadores, peçam para assistir (não necessariamente participar!) a rituais públicos que hajam, etc. Tentem conhecer e ver o método de funcionamento da Tradição e analisem se é aquilo que querem e à aquilo que querem ser associados. Deixem passar um longo período de tempo: seis meses, um ano, etc. E revejam se ainda é aquilo. Se for: força. Se não for: Ainda bem que esperaram. Uma coisa com que todos estamos familiarizados é a "honeymoon phase" das relações amorosas: Aqueles primeiros meses em que tudo parece perfeito e maravilhoso e vai correr super bem e nada nos vai derrotar. Isto também acontece quando conhecemos grupos e tradições. De forma a tomar a decisão consciente do que queremos devemos deixar passar esta fase, sem fazer qualquer tipo de compromisso, e só depois tomar a decisão de forma a não nos deixarmos influenciar pela idealização inicial. 


  • Não aceitem fazer aquilo com que não concordam. 
Este é outro ponto importante a abordar porque por vezes gostamos de uma tradição ou de um grupo, ou inclusive o grupo é constituído por amigos nossos e queremos mesmo participar mas... Pedem-nos algo que não queremos fazer. Prestar culto a uma divindade específica, deixar de falar com uma específica comunidade pagã ou com pessoas de certas tradições, fazer os rituais skyclad/nús, participar em rituais com os quais não concordamos (ex: rituais sexuais), etc. Mas nós gostamos mesmo da tradição ou das pessoas e não queremos desiludir essas pessoas. Às vezes até são essas pessoas que nos dizem coisas como "Não vais parar agora, certo?", "Oh não é nada de especial, é só esta vez", "Afinal a tua dedicação ao nosso grupo não é assim tão grande" e outras formas de convencer-nos a fazer algo que não queremos. Novamente, reforço que o "Não" é a palavra mais importante e poderosa do nosso vocabulário. É a palavra que nos dá a liberdade de escolher e de escolher não fazer algo, não participar em algo. Não se sintam obrigados, não pensem "Se não participar neste grupo nunca irei encontrar outro", "Se não aceito com estas pessoas, nunca vou aceitar e nunca vou conseguir praticar", etc. Não pensem desta forma. Se é algo que não querem ou não se sentem confortáveis não façam, independentemente dos motivos. Haverão outras oportunidades, haverá mais chances e chances e oportunidades que vibram connosco e com o que concordamos e acreditamos. Posso dizer-vos que, no meu caso, pensei que seria a melhor forma para obter conhecimento de forma estável e que não iria ter outra forma, por isso, mais valia arriscar. E, assim que saí da situação em que estava, imensas portas abriram-se para mim com uma enorme abundância de métodos de aprendizagem que vibraram com o que eu queria! Na altura bastaria eu ter tido paciência. Por isso: Tenham paciência, mais oportunidades virão e oportunidades essas que não vão obrigar-vos a fazer algo ou assumir algo que não querem. Se não vibram com aquela energia ou com aquela ideia: Digam "Não". Independentemente de serem amigos, familiares, colegas,  etc. Se são realmente pessoas que vocês confiam e que são vossas amigas então nunca vos iriam coagir/obrigar a fazer algo que não queiram. Considerem isto também um sinal para rever essas relações. 


  • Não acreditem cegamente nas pessoas
Todos somos seres humanos, sem excepção. Todos nós cometemos erros. Seja eu, sejam os meus amigos, sejam líderes de covens, Altos Sacerdotes e Altas Sacerdotisas, etc. Seja quem for será humano e, como tal, comete erros, pode estar enganado, etc. Ninguém sabe tudo e ninguém é perfeito, por isso, não acreditem cegamente nas palavras das pessoas, sejam quem for. Seja o que vêem escrito neste blogue, noutro blogue, que vos dizem dentro do círculo, que vos dizem em leituras de Tarot, em rituais, etc. Sei que pode parecer algo extremista mas não é. Não vos estou a dizer para considerarem toda a gente automaticamente errada ou mentirosa, nada disso! Apenas para não acreditarem nas coisas como sendo "a única verdade" porque não há "únicas verdades". Não há "O caminho certo" por default, há vários caminhos certos, um para cada pessoa que o trilha. E o vosso caminho será diferente do caminho das outras pessoas e isso é bom, é excelente. Se conhecerem alguém que vos diga "na realidade as energias funcionam *desta* forma" ou "os rituais devem ser sempre celebrado *assim*" e insista que aquela é a única e exclusiva maneira de fazer as coisas... Fujam. Isto é meio caminho andado para dar problemas, porque primeiro começa com a forma como os rituais são feitos e, quando damos por nós, a pessoa já opina sobre tudo na nossa vida e deixámo-nos levar. Tenham mente crítica e não aceitem cegamente a informação que vos é dada, pensem, investiguem, leiam, etc. Ninguém, independentemente das credenciais que possa ter, vai ser conhecedor total de tudo. Não só porque há demasiado conhecimento no Mundo para alguém saber absolutamente tudo de tudo mas também porque cada um pratica as coisas à sua maneira. A vossa forma de se conectar com Hekate poderá ser diferente da minha forma de me conectar com Hekate. Isso não invalida a minha forma nem invalida a vossa forma. São formas diferentes. Não confiem cegamente nas pessoas, não façam o que elas querem ou dizem para fazer apenas porque acham que elas sabem mais do que os outros, etc. Façam porque que querem, acreditem que sentem que é suposto acreditar. 


Os caminhos pagãos são caminhos extremamente pessoais e não devem ser ditados por outros. Infelizmente, porém, o que não falta por aí é pessoas dispostas a ditar os caminhos dos outros e, pior, tentar influênciá-los e usá-los para o seu próprio bem. Este artigo é escrito com o intuito de ajudar quem está a começar a evitar alguns dos principais perigos que podem encontrar dentro das comunidades e ajudar também quem possa estar em situações destas a identificar as mesmas e a conseguir escapar delas. 


A vida pagã é repleta de diversidade de práticas e caminhos, de variedade de métodos de trabalho e formas de ver o Mundo e a Arte. Não tenham medo de dizer que não a certos caminhos porque não vibra com o vosso, não tenham receio de dizer que não querem afiliar-se com determinada pessoa porque não gostam da forma como a mesma actua, não sintam medo de recusar rituais ou iniciações. Não pensem que estão a "escapar a oportunidades" ou a perder chances. Estão apenas a seguir o vosso caminho, a vossa intuição, a vossa vontade. E essa é soberana na vossa vida. 


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O blogue está abandonado? Não vejo posts novos!
Nope! 😅 Mas a Alexia tem uma vida bastante ocupada, principalmente agora com o Mestrado e nem sempre consegue manter o blogue atualizado. Quando ela tiver tempo, ela escreve algo mas entretanto, têm imensos recursos (+10 anos!) para ler. As informações mensais são atualizadas todos os meses. 💖

A não esquecer

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Infos Mensais - OUT 2026 🇵🇹

🌙 A Lua 🌙

Quarto Minguante: 03 Outubro
Lua Nova: 10 Outubro
Quarto Crescente: 18 Outubro

Lua Cheia: 26 Outubro

 

🌞 O Sol 🌞

Alvorada: 07:32h (01-Out) | 07:02h (30-Out)
Anoitecer*: 19:19h (01-Out) | 17:37h (30-Out)

* A 25/Out o relógio atrasa 1h.

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Este trabalho é dedicado às Senhoras Ἑκάτη (Hekate) e Περσεφόνη (Persephone)

Sob o Luar by Alexia Moon/Mónica Ferreira is licensed under CC BY-NC-ND 4.0