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Sob o Luar

Se este artigo vos parece familiar é porque é, trata-se de uma nova versão de um artigo existente de 2023 que achei que estava na altura de dar uma nova vida, com novos pontos de vista. 

Ao longo do nosso caminho dentro do Paganismo e Bruxaria é inevitável que tenhamos a sensação de estar presos num patamar que não nos satisfaz. Em que sentimos que algo não está certo, apesar de estarmos a fazer a mesma coisa que temos vindo a fazer nos últimos tempos (às vezes até anos!), mas que não sabemos como mudar ou o que fazer para solucionar esta situação. Apesar da consistência e da rotina serem essenciais para o nosso dia-a-dia e constituírem as bases fortes da nossa prática, corremos sempre o risco de nos tornarmos estagnantes e atingir um ponto em que fazemos as coisas não porque as mesmas fazem sentido ou têm propósito, mas porque uma versão nossa anterior disse que tínhamos de fazer. E, tanto na Magia como no Paganismo, o propósito e a intenção são os pilares que nos orientam e definem a nossa prática. As nossas ações, sejam devocionais ou mágicas, precisam de intenção e a rotina, por vezes, pode retirar essa intenção e tornar as nossas ações como repetições mecânicas, despedidas de propósito. 

Antes de mais gostaria de recomendar a leitura do livro "The Witch's Path" da Thorn Mooney. Já falei muito dele daqui na análise literária e considero ser um livro excelente tanto para iniciantes como praticantes de longa data e que contém vários exercícios adaptáveis a todos os graus de dificuldade e situações possíveis, que nos ajudam a evoluir no nosso caminho, a quebrar rotinas tóxicas e a ser a nossa melhor versão de nós próprios enquanto Bruxes e, até, Pagãos. Um livro por ser relacionado com Bruxaria não quer dizer que não seja útil para aqueles que se identificam apenas como Pagãos. 

De seguida é preciso entender a origem desta estagnação e isso começa por uma reflexão interior. Esse é o momento de honestidade pessoal, em que temos de refletir e ser genuinamente honestos connosco próprios.  Temos de nos perguntar: o que é que não nos satisfaz? É preciso sentar, analisar as nossas rotinas, as nossas ações e entender onde está aquilo que já não faz sentido. Será a forma como falamos com as nossas divindades? Será o aspeto do nosso altar? Será a nomenclatura que usamos para nós próprios? Ou talvez seja o método divinatório que usamos diariamente que já não nos inspira para trabalharmos com? Algo estará a ser a causa da nossa estagnação e precisamos de refletir, genuinamente e sinceramente, e identificar o que é, para que o possamos mudar e curar. 

Um pouco importante, que sinto que afeta muita gente, é a ideia de que não podemos mudar e temos de nos manter fiéis aquilo que "dizemos ser". Isto é principalmente verdade na era das redes sociais. Definimos a nossa personalidade, os nossos gostos e os nossos caminhos com diversas "labels" e "etiquetas" que atribuímos a nós próprios. Tudo isto é válido e faz sentido, contudo, temos de garantir que isto nos serve realmente como uma ferramenta de auto-conhecimento e auto-trabalho e não como um factor limitador. Para isso, temos de aceitar que a mudança faz parte da vida e da nossa existência. Tal como a Natureza muda, da Primavera até ao Inverno, também o nosso caminho, seja pessoal ou espiritual, pode mudar ao longo da vida. 

Encontrando aquilo que não funciona no nosso quotidiano e que nos deixa insatisfeitos, está na altura de aplicar mudanças. Pode ser algo simples como passar a ter orações à noite ao invés de durante o dia, pode ser mudar a forma como celebramos os festivais, experimentar mais festivais ou menos festivais, conectar com uma divindade, desconectar com outra divindade, etc. A resposta é algo pessoal e a forma como ela vai ser aplicada vai ser pessoal também. Não há um manual ou um guia 101 de como construir a nossa prática ou como reconstruir a nossa prática, pelo que confiem na vossa intuição. Recordem-se: A vossa prática, espiritual ou mágica, tem de servir para vocês. Só vocês, não para algoritmos, para seguidores ou para outros (a menos que estejam dentro de grupos ou covens, aí esta dinâmica poderá ser diferente), mas principalmente para vocês.

Porém há alturas que nem assim conseguimos entender ao certo o que está errado. Por mais que pensemos ou meditamos simplesmente não conseguimos entender. Algo não está certo, mas o que será? Nestes casos, eu recomendo, tal como a Thorn recomenda no seu livro, que façamos uma lista de coisas gostamos e experimentemos um pouco. Não há regras que nos impeçam de mudar ou adaptar a nossa prática durante uns tempos. Nada diz que não podem experimentar outros caminhos. Por isso outra solução é ver o que é que nós gostamos de estudar e ler sobre: Será que gostamos de ler sobre Deuses Egípcios? Ou sobre Druidismo? Ou sobre práticas de bruxaria marinha? Escrever quais são os nossos interesses e por que motivo gostamos deles. E depois… experimentar! Fazer práticas de bruxaria marinha durante um mês e ver o que gostamos de fazer e o que não gostamos. Aplicar algumas práticas de Druidismo no nosso dia-a-dia. Ler sobre Divindades Egípcias e até investigar práticas keméticas e ver algo nos agrada. E experimentar, aplicar nas nossas rotinas e na nossa vida e ver se gostamos das mudanças ou não. E se não gostarmos, mudamos para outra coisa até encontrar o que sentimos que faz sentido.

Outra alternativa é voltar às origens. A maioria de nós começa o seu caminho no Paganismo ou na Bruxaria de forma bastante entusiasmada e temos tendências a olhar para essa altura como sendo uma altura bastante feliz e rica. Como tal, uma reflexão para essa altura para entender o que funcionava e o que não funcionava, voltar a aplicar algumas dessas rotinas no nosso dia-a-dia e tentar entender se esse retorno às origens poderá ajudar a revigorar o nosso quotidiano atual.  

Dentro da Bruxaria e do Paganismo temos milhares de tradições e caminhos, cada uma com as suas práticas e as suas técnicas de trabalho. Não há um caminho certo, como tal, podem e devem explorar os vossos caminhos da forma que sentem ser mais confortável e mais certa para vocês. Sem medos e sem receios, apenas partindo à aventura. E é exatamente isso que eu recomendo para quem está num momento de estagnação: Aceitar a mudar ao invés de tentar forçar o que não funciona e ir em busca daquilo que faz o nosso coração vibrar em alegria.

E vocês? Como gostam de fazer para sair de momentos de estagnação na vossa prática?


Hoje vamos continuar com a nossa série de artigos onde abordamos as divindades. Vamos falar sobre os seus mitos, as suas associações e um pouco da sua história. Estes artigos não têm como objectivo substituir a investigação sobre as divindades mas sim despoletar interesse e, também, fornecer alguns pontos de partida para iniciar contacto com as Deusas e Deuses de que falaremos. 

As informações contidas nestes artigos não são suficientes para sustentar uma prática de culto a uma divindade e investigação adicional é sempre necessária. No fundo de cada artigo deixamos uma lista de sites e livros recomendados sobre cada divindade, de forma a que possam explorar mais sobre cada Deusa e Deus que falamos aqui. Ao longo do artigo vamos deixando também links para informações adicionais e explorações aprofundadas de certos tópicos. 

***

Nome: Hera (Ἡρη)

Panteão: Grego

História e Mitologia: Hera é a mais velha das filhas de Kronos e Rhea e, à semelhança dos seus irmãos, foi engolida pelo pai até ser libertada pelo seu irmão Zeus. São várias as zonas da Grécia que dizem ser o berço de Hera, entre elas Argos e Samos. Sabe-se pouco da sua infância até ao casamento, contudo, a história da corte de Zeus a Hera é famosa, sendo que autores romanos atribuíam o símbolo do cuco à deusa, pois Zeus ter-se-ia tornado num cuco para a conquistar. O seu casamento com Zeus é um dos poucos casamentos oficiais na mitologia Grega e, por isso, Hera é a Deusa dos Casamentos e das Uniões. Em Homero, Hera é caracterizada como sendo ciumenta e obstinada, fazendo até Zeus tremer. Na Guerra de Troia, a mesma opõe-se aos troianos e apoia os gregos, e está presente em vários mitos e nas histórias de vários heróis como o Julgamento de Paris, a Viagem de Jasão, etc. É frequentemente representada como uma mulher madura, em posição de poder, com uma expressão que comanda a  reverência. Na sua cabeça costuma ter uma coroa, representando o seu estatuto como Rainha dos Deuses. 

Celebrações: A nível do culto de Hera temos vários registos do seu culto, do qual destacamos os Jogos de Heraea, celebrados a cada cinco anos em Olimpia, em honra à Deusa Hera. Adicionalmente, a Deusa era cultuada em várias cidades espalhadas pelo território grego, com destaque para Argos, a cidade de Hera.  

Geneologia: Filha de Kronos e Rhea e mãe de Ares, Hebe, Eileithyia, Hefesto e as Charites (Graças). 

Epítetos: Agreie ("de Argos"), Gamelia ("a do Casamento"), Zugia ("A que Une"), entre outros.

Símbolos: O cuco, a vaca, o cetro real, a coroa, leões, entre outros. 

Leitura Recomendada: 
  • Theoi - Hera
  • Helenos.br - Hera
  • Helenos.br - Hinos a Hera
  • Vídeo "In Defense of Hera" de Fel the Blithe

Tal como em todos os aspectos da nossa vida, a nossa jornada espiritual ou religiosa ou até mágica, nunca será linear. O nosso caminho não é um trilho de A a B mas sim de A a Z com paragem em quase todas as letras do alfabeto e, às vezes, até letras que não existem (ou até voltarmos atrás ao início do alfabeto e começarmos tudo de novo!). Isto faz com que, a certas alturas, haja momentos de dúvidas. Podem ser dúvidas como "Será que quero celebrar este festival?" ou dúvidas como "Será que acredito mesmo nisto?". E, tal como é normal ter dúvidas, é normal sentir culpa de ter dúvidas, contudo, esta culpa é desnecessária e temos de a ultrapassar, para que possamos enfrentar as nossas dúvidas e sair do "buraco" para onde tropeçamos. 

Ao longo de todo o meu caminho já passei por vários momentos de dúvidas e hoje venho trazer-vos alguns conselhos de como eu consegui ultrapassar alguns destes momentos, na esperança de vos ajudar a ultrapassar os vossos. Claro que nem todos os momentos de dúvida são iguais e o que serviu para mim, pode não servir para vocês (até pode nem servir para mim no futuro!) mas quantas mais possibilidades e reflexões fizermos, mais fácil é enfrentar o elefante na sala, por isso, vamos lá?

Para mim, o primeiro passo é entender qual é a dúvida ou qual o problema que estou a enfrentar no momento. Apesar de fácil, este pode ser dos passos mais complicados pois requer que sejamos sinceros connosco próprios e aceitemos que algo está errado ou que algo não está a funcionar bem. E, para quem está no mesmo caminho há muito tempo, pode ser complicado aceitar que algo já não funciona ou que deixou de fazer sentido. A mudança é assustadora, principalmente quando é algo que nos é tão pessoal como a espiritualidade/religiosidade. Contudo, não podemos enfrentar a tempestade sem saber como ela se chama e de que é feita, por isso, recomendo escolher um momento tranquilo, sentar e refletir sobre qual é o obstáculo. Aconselharia até a escrever num caderno ou numa folha, pois a realidade de olhar para algo escrito, preto no branco, torna tudo muito mais real e menos assustador. 

Depois de sabermos com o que estamos a lidar, temos de começar a lidar com o assunto. Para facilitar o artigo, vamos escolher um dilema e desenvolver como o mesmo pode ser ultrapassado. Imaginemos que o nosso dilema é "Sinto que a Wicca já não é o caminho para mim, e que não me sinto feliz". Como é que podemos começar a resolver esta situação? Para começar, eu diria para escreverem, por baixo desta frase, o que sentem que já não funciona. Será os festivais? É o facto de ser um caminho mais duoteísta (Deus e Deusa)? É o próprio nome em si? Ás vezes achamos que o caminho todo já não nos serve e, afinal de contas, era só um pequeno aspecto como "sinto que não consigo celebrar todos os Sabbats e sinto-me insatisfeite" ou "sinto que sou mais politeísta e menos duoteísta". Ao encontrarmos os pontos que nos deixam desconfortáveis, encontramos a forma de os desconstruir e arranjar uma solução. 

Assim que sabemos exatamente o que nos incomoda, é a altura de descobrir como lidar com isso. Aqui, é complicado sugerir soluções, porque vai depender não só de qual o problema em específico mas, também, daquilo que queremos fazer. No caso acima, a pessoa pode não querer deixar a Wicca mas apenas alterar coisas na sua prática pessoal. E, algo que sinto que devo insistir, isso é perfeitamente normal e dois Wiccanos não são iguais e podem, perfeitamente, adaptar a sua prática para encaixar no que sentem que é certo. Recomendo, contudo, se fazem parte de um coven organizado, que falem com os Altos Sacerdotes/isas e vejam alternativas, de forma a não se afastarem das práticas do coven, mas, se forem solitários, o céu é o limite e podem adaptar a vossa prática para se encaixar mais dentro da vossa vontade. Ao mesmo tempo, podem sentir que querem seguir um caminho diferente, e mudar para, por exemplo, "Pagão Eclético" e adaptar a vossa prática, mudando algumas celebrações ou coisas que fazem. Essa mudança é válida! 

Somos todos humanos e, por consequência, estamos todos sujeitos a mudanças e alterações na nossa vida. Ninguém fica a mesma pessoa da adolescência até à velhice, por isso, não sintam medo em mudar as vossas nomenclaturas ou os vossos caminhos, se sentirem que é o passo na direção certas. No final de contas, a espiritualidade e a religiosidade são coisas para ser vividas e experienciadas por nós, fazem parte da nossa vida pessoal, e não devemos satisfações a ninguém. Devemos fazer aquilo que sentimos que é certo e que é o apropriado para a nossa realização pessoal. Não tenham medo de mudar, o que importa, é que estejam felizes e se sintam ligados à vossa espiritualidade, seja ela qual for. 

E vocês? Já passaram por momentos destes? Quais as vossas dicas para quem está a passar por um momento destes?

Qualquer pessoa que investigue sobre Politeísmo Helénico ou que comece a pesquisar sobre Divindades Gregas, acaba por encontrar referências aos Hinos Homéricos. Contudo, nem todos sabem o que são os Hinos Homéricos e é sobre eles que hoje vamos falar.

Os Hinos Homéricos são um conjunto de trinta e três (33) poemas ou hinos a celebrar várias divindades. Os mesmos são considerados "homéricos" pois possuem uma estrutura semelhante aos épicos Homéricos da "Odisseia" e da "Ilíada", não significando, necessariamente, que tenham sido escritos todos pela mesma pessoa (a identidade do autor "Homero" é um assunto de debate entre os classicistas e historiadores, que não planeio abordar neste artigo). Os Hinos Homéricos são tentativamente datados do século 7 AEC (antes da era comum), contudo há alguns poemas que podem ter sido escritos mais tardiamente, como é o caso do "Hino a Ares", que alguns académicos consideram ser de um período mais tardio. 

Estes Hinos seriam originalmente recitados, na Grécia Antiga, em eventos ou rituais religiosos e descrevem os feitos dos vários Deuses, enaltecendo a sua história, a sua importância e o seu papel. Um dos Hinos mais famosos é o "Hino Homérico a Demeter" que nos conta a história da Descida/Rapto de Persephone, e, por consequência, o surgimento das estações do ano. Também o Hino a Hermes é bastante conhecido, pois retrata o nascimento do Deus Hermes e as suas peripécias enquanto bebé. 

Os Hinos Homéricos são importantes não só a nível religioso, pois permitem-nos uma visão dos mitos dos Deuses e, ao mesmo tempo, fornecem-nos hinos que podemos cantar ou recitar aos Deuses, tal como os gregos antes de nós o faziam, como também a nível literário, pois são uma das peças literárias mais antigas da Literatura Grega, e de uma importância enorme para os Estudos Clássicos. 

Existem várias formas de organizar os Hinos, pelo que podem encontrar várias ordens em que os mesmos se encontram listados, dependendo do tradutor ou do autor da edição. A ordem abaixo, que vos apresento, é com base no livro "The Homeric Hymns - A new translation by Michael Crudden" da Oxford World Classics, que é a edição que eu pessoalmente tenho em casa (e recomendo bastante, pois não só tem uma excelente introdução, como também possui notas que explicam os vários pontos de cada hino). Infelizmente não conheço nenhuma versão em português que possa recomendar. 

  1. Hino a Dionísio
  2. Hino a Deméter
  3. Hino a Apolo
  4. Hino a Hermes
  5. Hino a Afrodite
  6. Hino a Afrodite
  7. Hino a Dionísio 
  8. Hino a Ares
  9. Hino a Ártemis
  10. Hino a Afrodite
  11. Hino a Atena
  12. Hino a Hera
  13. Hino a Demeter
  14. Hino à Mãe dos Deuses (Rhea/Cibele)
  15. Hino a Heracles, com o coração de Leão
  16. Hino a Asclépios
  17. Hino aos Filhos de Zeus
  18. Hino a Hermes
  19. Hino a Pã
  20. Hino a Hefesto
  21. Hino a Apolo
  22. Hino a Poseidon
  23. Hino a Zeus
  24. Hino a Héstia
  25. Hino às Musas, Apolo e Zeus 
  26. Hino a Dionísio
  27. Hino a Artémis
  28. Hino a Atena
  29. Hino a Hestia
  30. Hino à Terra/Gaia
  31. Hino a Helios
  32. Hino a Selene
  33. Hino aos Filhos de Zeus

E vocês, já conheciam os Hinos Homéricos? Qual o vosso favorito?


No passado dia 4 e 5 de Novembro de 2023 realizou-se em Reguengos de Monsaraz, no Centro Druídico da Lvsitânea, o 1º Encontro Ancestral: Jornadas de Paganismo em Portugal. Este encontro foi organizado pelo Templo de Inanna e Astarté e pela Assembleia da Tradição Druídica Lusitana e com a Coordenação de COARCI - Conselho de Antigas Religiões e Cultos da Ibéria. 

O Sob o Luar teve o prazer de participar a convite do Templo de Inanna e Astarté e fez parte da Mesa Redonda - Impacto do Paganismo e das Comunidades Pagãs em Portugal e, juntamente com a Comunidade Paganices, teve a oportunidade de apresentar uma nova edição dos Seminários de Bruxaria Contemporânea, desta vez focando-nos na Feitiçaria e Bruxaria em Portugal! 

Primeiro Dia - 04 de Novembro de 2023


O dia começou cedo pelas 08:30h da manhã com uma receção e pequeno-almoço preparado pelos membros da ATDL e foi seguido pela Abertura oficial do 1º Encontro Ancestral, que contou com palavras do Arqui-Druida Adgnatios Kuridai da ATDL e da Mariana Vital, Sacerdotisa do Templo de Inanna e Astarté que nos deram as boas-vindas e apresentaram o programa para o evento. 

O restante da manhã foi espaço para o Ciclo de Palestras COARCI: Paganismo em Portugal, onde tivemos a oportunidade de ouvir quatro apresentações: 

  1. As transmutações da Roda do Ano Céltica Lusitana por Arqui-Druida Adgnatios Kuridai
  2. Xamanismo Ibérico por Carla Mourão
  3. Assembleia da Tradição Druidica Lusitana por Adgatia Vatos 
  4. Cultos Fenícios e Ibéricos em Portugal por Mariana Vital
Após um delicioso almoço, cortesia da ATDL, passamos para a parte da tarde que, apesar da chuva que se fez sentir, foi recheada de de atividades! Começamos pela segunda edição dos Seminários de Bruxaria Contemporânea onde tivemos a oportunidade de participar num ritual criado por Amala Oliveira da CASA Sagrar e onde a mesma nos falou acerca das "Memórias da Antiga Tradição preservadas no quotidiano das avós". Logo de seguida, e ainda dentro dos Seminários da Bruxaria Contemporânea, foi a apresentação de Karagan Griffith, Alto-Sacerdote da Wicca Alexandrina do Coven de Tomar - Linha de Queensberry, acerca do "Movimento Alexandrino no Mundo e Portugal" onde nos apresentou esta Tradição da Wicca, a sua história e partilhou connosco alguns vídeos.

No fim dos Seminários, tivemos uma atividade de Oficina de Barro guiada por Medeia, onde os participantes tiveram oportunidade de criar o seu Totem Ancestral. Após um pequeno lanche, celebrou-se o Rito Ancestral de Samónios no espaço sagrado da ATDL, cujas fotos podem verificar na página oficial da ATDL. 


Para terminar o primeiro dia deste evento, tivemos um Concerto Bárdico pelos bardos da ATDL e um Espetáculo de Fogo deslumbrante cortesia da Rita Duarte e do Luís Barbas. Ao longo do dia, tivemos disponível uma Mostra de Artesanato de vários artistas pagãos portugueses como Under the Moon Strings, Portal de Hécate, Fora Deste Mundo, Medeia, Retorno da Deusa, Bosque de Drusuna e o hidromel e livros da própria ATDL. 

Segundo Dia - 05 de Novembro de 2023

O segundo dia deste evento iniciou-se pelas 09h da manhã com um pequeno almoço, cortesia dos elementos da Assembleia da Tradição Druídica Lusitana, seguindo-se o Lançamento da Revista da Tradição Lvsitana Centro de Estudos Druídicos. Ao longo do dia estava também disponível uma Mostra Literária que contava com a presença do Centro de Estudos Druídicos, Morgana da Lusitânia, Karagan Griffith, Jimahl Di Fiosa, Amala Oliveira e Mora Sininho Rosa. 


Durante a manhã tivemos a primeira Mesa Redonda do dia com a temática "Movimentos Emergentes no Paganismo em Portugal" que contou com a participação de Mora Sininho Rosa, Joana Martins e Natasha Mirra, com moderação de Mariana Vital. Nesta mesa falou-se da forma como o Paganismo é visto e reconhecido pelas novas gerações, da importância das redes sociais e do seu impacto no movimento pagão, das questões socioambientais que atravessamos de momento e da definição de Paganismo no espaço e tempo atual. 


Após a Mesa Redonda seguiu-se o almoço, onde os participantes tiveram a oportunidade de conviver e trocar opiniões acerca dos debates que ocuparam a manhã e se prepararem para a segunda Mesa Redonda, que se iniciou no período da tarde. A segunda Mesa Redonda contou com a participação de Adaltena (ATDL), Mariana Vital (Templo de Inanna e Astarté), Carla Mourão (Retorno da Deusa), Alexia Moon (Sob o Luar) e Karagan Griffith (Coven de Tomar), com moderação de Natasha Mirra. Nesta mesa abordou-se a temática "Impacto do Paganismo e das Comunidades Pagãs em Portugal" e debateu-se a evolução das comunidades pagãs no nosso país nos últimos anos, as reflexões das mudanças e desafios que cada um dos participantes enfrentou e enfrenta no seu trabalho com a comunidade pagã e várias reflexões acerca do que é a comunidade e como a comunidade deve ser trabalhada e coexistir entre si. 

No final da última Mesa Redonda, procedeu-se à entrega dos prémios do 1º Concurso de Poesia Pagã, cujos resultados podem ser verificados na página oficial da Assembleia da Tradição Druídica Lusitana! Parabéns a todes vencedores!

No final, após umas palavras de fecho da organização, partilhou-se de um hidromel e deu-se por encerrada a primeira edição do Encontro Ancestral! Esperamos que haja oportunidade de serem feitos mais eventos similares em Portugal e estamos à espera da próxima edição!

E vocês, foram? O que acharam?

Um sentimento que é comum tanto a pagãos como a praticantes de ramos de bruxaria, é a a vontade de adaptar os caminhos pessoais aos locais onde vivemos, seja a nível de festivais, tradições, práticas tradicionais, etc. É uma vontade comum e, na minha opinião, essencial para aqueles que pretendem melhorar os seus laços com a sua terra ou o local onde vivem. 

Como já referi várias vezes aqui no blogue, na minha opinião, ser Pagão também implica uma conexão com o Mundo em que vivemos, especificamente com o mundo ativo onde estamos, ou seja, as nossas cidades, aldeias, vilas, países, zonas do mundo, quintais, etc. Muitos pagãos concordam que um dos pilares da definição do Paganismo, é a conexão com a Natureza e a ligação com o mundo natural. E, sejamos honestes, qual a melhor forma de estabelecer esta conexão e de sentir estas ligações do que com aquilo que está ao nosso redor? O que é mais fácil, para um pagão da América do Norte, conectar-se com as árvores do seu quintal ou da sua rua ou conectar-se com o conceito de uma árvore que só existe na Inglaterra ou na Irlanda? Será, obviamente, mais fácil conectar-se com a sua própria flora local. A ligação com a Natureza local, não só é uma mais-valia do ponto de vista ecológico (como eu já mencionei no artigo sobre a Ética dos Cristais e Plantas, acerca da utilização de ervas e plantas que existam perto de nós, fomentando o comércio local, aprendendo a cultivar e cuidar de plantas e estabelecendo aliados em plantas nativas da nossa zona) como também é uma mais-valia do nosso próprio bem-estar espiritual, pois estes aliados de que falamos, encontram-se perto de nós e ajudam-nos no nosso caminho. Um exemplo prático deste cenário, e um pouco relacionado com o meu caminho pessoal, é o culto das Ninfas na Antiguidade Clássica. Era comum haver ninfeus, pequenos locais de culto às ninfas locais, fossem de fontes, lagos, rios, etc. A água era preciosa e era essencial garantir uma ligação estreita com os seres espirituais destas fontes de água e, como tal, havia o culto das Ninfas que ainda hoje em dia podemos aplicar na nossa prática. 

Para além destes aspetos, podemos também referir que a adaptação das práticas locais, como festivais ou tradições, pode ser benéfico para quem tem interesse em aprofundar ligações com as tradições folclóricas do local onde nasceu ou vive. Por exemplo, um praticante de Trás-os-Montes poderá querer incluir no seu caminho características ou práticas típicas transmontanas. Apesar de muitas destas práticas terem influências católicas e cristãs, a origem-base das mesmas é o Paganismo e, como tal, podem facilmente ser readaptadas de volta a caminhos pagãos. Para aqueles que sentem uma ligação próxima com o local onde vivem ou nascem, com o seu país ou com a sua zona do país, esta pode ser uma forma de coexistir os dois mundos. Isto também se refere a práticas ou costumes familiares, passados de geração em geração e adaptados ao caminho pagão de cada um. 

Não há um conjunto de instruções de passo-a-passo de como fazer isto. É algo que vai depender de cada um de nós, de cada uma das práticas que pretendemos incluir ou adaptar e da forma como o queremos fazer. O que recomendo, para quem quer começar a explorar estas hipóteses, é investigar e estudar sobre as práticas locais onde zona que tem interesse, escrever tudo num documento ou numa folha e tentar estabelecer um plano de como incluir as mesmas na sua prática pessoal. Recordo que não existem regras fixas neste processo, e que podemos (e devemos) adaptar as coisas como sentirmos que faz mais sentido. E, claro, a qualquer momento do nosso caminho, podemos voltar atrás e mudar algo ou trocar algo, se acharmos que já não faz sentido estar como está. 

E vocês, há alguma prática local que tenham adaptado ao vosso caminho? 

O culto aos Ancestrais é uma prática predominante em várias tradições dentro do Paganismo, como é o caso do Helenismo ou de Heathenry e, também, em práticas mais tradicionais ou folclóricas. Este tipo de culto é um culto diferente do culto de Divindades (como já vimos anteriormente no artigo Diferença de Cultos: Deuses, Ancestrais e Outros), pois não é baseado no honrar uma divindade/ser superior, mas sim no honrar e respeitar aqueles que vieram antes de nós. Inclusive, muitos praticantes preferem chamar-lhe "Honras" aos Ancestrais, ao invés de Culto. Tal como quase tudo dentro do Paganismo, vai depender do praticante e da tradição, pelo que não se sintam limitades.

Apesar de, por norma, este culto ser prestado culto aos nossos familiares diretos, que já não se encontram entre nós, como é o caso de avós, bisavós, tios, pais, etc. é também comum haver honras a outros tipos de Ancestrais. Há quem goste de dividir o conceito de Ancestrais, reconhecendo vários tipos de ancestrais como:
  • Ancestrais de Sangue: Aqueles que fazem parte da nossa família e da nossa árvore genealógica, que partilham a nossa linhagem. 
  • Ancestrais da Arte: Aqueles que fazem parte do nosso caminho religioso/espiritual/mágico, mesmo que não os conheçamos. Podem ser autores famosos que nos inspiraram e já morreram, podem ser ancestrais de uma forma mais genérica como "todas as sacerdotisas antes de mim", etc. 
  • Ancestrais de Honra: Aqueles que, pelas suas ações ou pela sua vida, queremos honrar. Aqui pode haver uma mistura com o conceito de Honra de Heróis, dado que as pessoas podem ser encaixadas em ambas as categorias. Podem ser atores, figuras políticas, figuras históricas, etc. 
  • Entre outros. 
Estas categorias podem ter vários nomes, e até serem subdivididas, dependendo das tradições. Mas, essencialmente, representam o mesmo. É um conjunto de pessoas, que conhecemos ou não, que já não se encontram no plano físico e às quais queremos honrar. Há quem decida incluir, nos seus altares de ancestrais, também animais de estimação, ficando ao critério de cada um. 

Agora, a questão que se coloca, como se começa um culto ou honras aos Ancestrais? E como se faz? 

Da mesma forma que cria qualquer outro tipo de culto ou honras: Devemos criar um espaço para um pequeno altar ou local onde possamos honrar estas pessoas, com base na nossa prática pessoal (por exemplo, no meu caso, o meu altar de Ancestrais está abaixo de todos os outros altares, para estar mais perto da Terra e do mundo ctónico). Podemos decorar o mesmo como preferirmos, sendo que recomendo sempre uma toalha e velas. E, claro, devemos colocar fotos ou representações de quem queremos honrar. Podem ser fotos das pessoas, objetos que a pessoa nos tenha dado e nos lembra dela, cartas ou outros bens que nos fazem pensar na pessoa. 

Estamos, essencialmente, a criar um pequeno espaço onde podemos ir e recordar aquelas pessoas, pensar nelas, no impacto que tiveram na nossa vida e recordá-las. Como se costuma dizer na Bruxaria "Aquilo que é recordado, vive" e é esse o objetivo da honra dos Ancestrais: recordá-los e manter a sua memória e legado vivos. 

Depois do espaço criado, a forma como as honras são feitas vai depender de cada tradição e caminho (recomendo este artigo que compila algumas formas de culto de Ancestrais). Algumas recomendações que posso dar são:
  • Manter o espaço limpo e estabelecer um ritmo para fazer oferendas (podem ser velas, incensos, libações, etc.); 
  • Determinar uma altura do ano (para quem segue a Roda do Ano, poderá ser Samhain) onde dedicamos mais tempo e uma celebração mais complexa aos Ancestrais; 
  • Ir renovando as fotos ou adicionando novas pessoas, conforme necessário. 
O culto dos Ancestrais, ainda mais do que o culto das Divindades, é um culto extremamente pessoal, pois as pessoas que estamos a honrar são pessoas que tiveram um impacto direto em nós, na nossa vida e no nosso caminho e, como tal, não há certos nem errados. Poderá haver orientações, dependendo da tradição de cada um, mas, no final de contas, este espaço que criamos serve para nos conectar com quem já não está entre nós e só nós podemos decidir o que é certo ou errado, por isso, não se sintam limitades por nada que leiam e, lembrem-se, "Aquilo que é recordado, vive". 

Uma das coisas que parece bastante complicada quando estamos a começar no caminho do Paganismo ou da Bruxaria é o de criar a nossa própria prática e como dar os primeiros passos para estruturar o nosso caminho. Este artigo tem como objetivo reunir algumas dicas para ajudar neste processo! 

Para começar é preciso recordar que tudo deve ser feito ao nosso próprio ritmo. No final de contas, seja o nosso caminho mágico ou nosso caminho espiritual, ambos são caminhos individuais e para nosso próprio crescimento, satisfação e felicidade. Não estamos a competir com ninguém nem existe nenhuma corrida, pelo que devemos ir ao nosso ritmo pessoal e conforme aquilo que estamos a sentir que é o certo. 

A melhor forma de construir a nossa prática pessoal é ir aos poucos, conforme vamos aprendendo e experimentando. Não nos podemos esquecer que, como tudo na vida, a nossa prática vai ser fluída e vai mudar com a passagem do tempo, por isso, um dos principais conselhos é estar aberto à mudança e à fluidez das nossas práticas. 

Para além desta fluidez temos também de nos recordar de não querer ser perfeites logo ao começo e que falhar ou experimentar coisas só pela vontade de experimentar é normal e até aconselhável, por isso, devemos sempre lembrar-nos que a primeira estrutura ou rotina que criamos não vai ser a que vai ficar para sempre ou a "definitiva". Temos a liberdade para explorar os nossos caminhos da forma que achamos melhor e que nos identificamos mais. 

Após já termos algumas bases nos assuntos é quando começamos a querer estruturar algo conciso e dar-lhe um nome. Começar a identificar-nos com um caminho específico e estruturar como a nossa prática é definida. Algumas dicas para quando iniciamos este processo:
  • Fazer uma pequena lista dos nossos interesses dentro do Paganismo e da Bruxaria, para entendermos onde está o nosso "nicho" e o nosso foco. É okay se a lista for diversificada, mas termos esta estrutura escrita ajuda-nos a guiar-nos e a saber por onde trilhar. 
  • Fazer uma lista de palavras que achamos que definem o nosso caminho. Podem ser palavras aleatórias como "Verde", "Fadas", "Grécia", etc. Algo que nos ajude a classificar as coisas que associamos com o nosso caminho. 
  • Se não quisermos dar já um nome ao nosso caminho, não há problema! Podemos apenas identificar-nos com termos vagos como "Bruxe" ou "Pagão" e ficar por aí. Esses termos são válidos. Até "Curiose" é um termo válido. 
  • Se houver afinidade por algum tipo de divindade ou algum panteão, podemos começar a explorar mais esse campo para ajudar na nossa prática, dado que muita coisa pode ser construída em torno do culto devocional a Divindades. A mesma coisa se aplica a Seres Mágicos ou Entidades! 
  • Depois de termos criado a nossa lista de interesses e a lista de palavras chaves, podemos começar a procurar conteúdos (tanto online como em livros) relacionados com essas temáticas. Ver o conteúdo de outros praticantes vai ajudar-nos a tirar ideias de coisas a aplicar na nossa prática. 
  • Se houver, recomendo também juntar a comunidades relacionadas com os nossos interesses como Grupos do WhatsApp ou de Facebook onde se possa trocar opiniões e ideias com outros praticantes. 
No final das contas o que não pode ficar esquecido é que o caminho a trilhar é, e sempre será, nosso e somos nós que o definimos e o vivemos, pelo que devemos sempre trabalhar para sermos felizes no nosso caminho e não necessariamente agradar outras pessoas ou cumprir "aesthetics" (que é um dos principais problemas das redes sociais hoje em dia). 

E vocês, que conselhos dão nestas situações?  

Hoje vamos voltar a falar sobre Divindades e, mais especificamente, como começar a trabalhar com elas. Sim, já temos um artigo parecido aqui no blogue, intitulado "Como começar devoção aos Deuses?" mas, como podem ver, eu escolhi terminologias diferentes: Trabalho vs Devoção. 

Enquanto a devoção, que foi falado no meu artigo antigo, tem um carácter mais religioso e espiritual, o trabalho é algo mais prático e mais comum dentro da Bruxaria, onde é estabelecida uma relação de trabalho com uma divindade. Ou seja, a divindade e o praticante estão numa espécie de negócio, em que há uma troca de algo a ocorrer, por norma, oferendas em troca de algo para o praticante. Este tipo de trabalho é algo mais informal e, em alguns casos, sem qualquer tipo de intimidade por parte do praticante (algo que na devoção acaba sempre por acontecer). 

O trabalho com as Divindades pode ser feito pelos mais diversos propósitos mas, por norma, é no seguimento de trabalhos mágicos no qual o praticante queira solicitar a ajuda de Deuses. Este trabalho mágico com as divindades não requer compromissos, tirando aqueles estabelecidos durante a troca ou acordo com as divindades, mas requer trabalho por parte do praticante, principalmente em garantir que aquilo que prometeu aos Deuses lhes é entregue. Um exemplo prático é um praticante que prometa a Hermes que lhe fará oferendas semanais durante um período de um ano em troca de ajuda num processo de candidatura de emprego. O praticante terá de garantir que, durante aquele ano, fará as oferendas prometidas. 

Mas, como começar este tipo de prática? Este tipo de prática não é para toda a gente, até porque, como já falamos, a Bruxaria pode ser praticada sem a presença de Deuses. Não é uma prática obrigatória e só deve ser feita por aqueles que se sentem confortáveis com isso. Por norma, neste tipo de prática, não há qualquer chamamento por parte de Divindades, porque o principal interesse nesta troca é do praticante. 

Inicialmente, é preciso garantir que não vemos os Deuses como "Deuses de Prateleira" (podem ler mais sobre o assunto, no artigo do link) e que os vemos como entidades individuais (no caso do politeísmo, mas também aplicável ao caso da Deusa/Deus da vertente duoteísta). Ou seja, não devemos começar a ir sempre a Afrodite porque queremos amor ou Hermes porque queremos ajuda com dinheiro ou Atena porque queremos ajuda com os estudos. Apesar de ser um processo de trabalho, e não de devoção, não significa que os Deuses sejam bonecos para serem explorados ou utilizados. Vejam os Deuses, neste cenário, com amigos que vocês conhecem. Vocês se tiverem um amigo que tenha dinheiro, não vão estar sempre a ir a esse amigo pedir dinheiro, não é? Porque ele vai acabar por se cansar de vocês e deixar de responder às mensagens. E os Deuses, passa-se a mesma coisa, vai acabar por haver divindades com as quais vão trabalhar mais vezes e às quais podem recorrer para pedir ajuda, mesmo que não seja totalmente do foro delas. E não há problema nisso. 

Outro passo essencial, semelhante ao que acontece no processo devocional, é a necessidade de explorar e aprender sobre a Divindade. Não podemos apenas fazer um ritual, chamar Zeus e dizer "Olá Zeus, quero isto". É óbvio, não é? Isto é a mesma coisa que ir na rua, parar um estranho e pedir 20€. Ninguém faz isso. É preciso entender a divindade, entender os seus mitos e ter alguma noção sobre quem estamos a chamar e se é a pessoa certa para o que precisamos (tal como faríamos se fossemos contratar um carpinteiro para arranjar em casa, não iríamos ao primeiro que aparece na pesquisa, mas iriamos ver qual o melhor para o que queremos). Cabe ao praticante fazer o esforço de aprender sobre a Divindade e tomar a iniciativa. 

Aqui é a parte onde difere do aspeto devocional: Enquanto no devocional iniciaríamos o processo de aproximação da divindade, oferendas e meditações, criar altares e por aí fora, no campo do trabalho mágico esse aspeto acaba por não acontecer (pode acontecer, mas não é uma necessidade). Aqui inicia-se o trabalho mágico em si, seja ele qual for. E é feito o acordo e a troca com a Divindade (seja ela qual for, também). E depois, é da parte do praticante garantir que cumpre a sua parte, mantendo o respeito pela Divindade e pelo trabalho que está a fazer. No fim, poderá despedir-se da Divindade de vez ou continuar a trabalhar com ela durante mais algum tempo. 

Espero ter ajudado a distinguir o conceito de devoção e de trabalho e conseguido orientar no processo de aprender sobre como começar a trabalhar com Divindades. O resto é tentativa e erro da parte do praticante! 

Se quiserem deixar dicas (ou questões) nos comentários, sintam-se à vontade! 

Um dos temas que me foi pedido no Instagram do Sob o Luar foi para falar sobre a apropriação cultural e como evitar a mesma na nossa prática. Antes de começar, vamos definir o que é apropriação cultural: 

Segundo Arnd Schneider (2003) a apropriação cultural é a adoção inadequada ou não reconhecida de um elemento ou elementos de uma cultura ou identidade por membros de outra cultura ou identidade. Isso pode ser controverso quando membros de uma cultura dominante se apropriam de culturas minoritárias.

Alguns exemplos de apropriação cultural são, por exemplo, os disfarces de "índios" que se vêm durante o Carnaval ou Halloween que são uma clara ofensa aos povos nativos-americanos. Ou a utilização do termo "smudging" para significar limpeza de um local, sendo que esse termo é exclusivo de tribos índígenas onde smudging não é apenas queimar ervas para limpar uma casa, mas todo um ritual específico dentro desta cultura. Existem diversos exemplos de apropriação cultural, de diversas culturas, que acabam por estar presente, infelizmente, em nosso redor. Contudo está no nosso poder (e dever!) garantir que não as propagamos e, aliás, que educamos as pessoas à nossa volta para não compactuar nestes comportamentos. 

É também importante distinguir que existem diferenças entre o termo de "apropriação cultural" e o termo "prática fechada". Uma prática fechada é, por norma, uma prática que requer iniciação dentro da mesma e que não pode ser praticada fora desses grupos ou tradições. Não quer dizer que a pessoa X ou Y não a possa praticar mas, para o fazer, terá de ir ter com esses grupos, introduzir-se nas suas culturas, socializar, conhecer as pessoas e, se o grupo em causar a aceitar, então aí tratar desse processo. 

Agora, a grande questão: Como evitar praticar apropriação cultural? 

Acima de tudo entendendo de onde vêm as coisas que estamos a praticar. Quando estamos a aprender sobre Bruxaria e Paganismo e vemos algo que gostaríamos de incorporar na nossa prática é essencial investigar sobre esse assunto e, acima de tudo, entender as suas origens (e, dessa forma, acabamos por entender também o seu funcionamento). Obviamente que uma prática que seja comum em todo o espaço europeu não vai ser um caso que possa ser apropriado culturalmente porque faz parte da cultura de todo um continente que possui um papel dominante na sociedade ocidental. Ou uma prática que seja de uma cultura morta (como Antigo Egipto ou Roma Antiga), porque não há uma cultura minoritária a ser afetada, porque a mesma já não existe há milhares de anos (ao contrário do que muitos grupos nacionalistas dentro das comunidades possam tentar alegar). Mas se calhar, se for uma prática de uma tribo indígena sul-americana já se trata de uma apropriação cultural, principalmente se essa cultura for abertamente contra essa prática (que é o caso de algumas práticas africanas ou de tribos indígenas brasileiras que se vêm apropriadas). 

Esta é, sem dúvida, uma área na qual é preciso trabalho ativo. Não há forma de ter uma lista com todas as coisas que não podem ser apropriadas culturalmente porque isso seria impossível. É preciso ler e investigar o assunto (O google é uma excelente ferramenta o TikTok/Tumblr nem por isso) e ver, acima de tudo, testemunhos de pessoas que fazem parte das culturas afetadas para entender o feedback delas. Em caso de dúvida, podemos sempre participar em comunidades online e questionar os outros para tentar aprender (principalmente questionar pessoas dessas culturas porque não é alguém como eu - branca e europeia - que vos vai conseguir falar em nome de uma cultura à qual eu não pertenço). E em caso da dúvida se manter, podemos sempre abster-nos de certas práticas ou, melhor ainda, substitui-las por coisas mais perto de casa! Por exemplo, voltando ao caso do smudging: Ao invés de querermos queimar sálvia branca ou palo santo (que são duas plantas que estão a ser exploradas em excesso ao ponto de estarem em risco e, também, utilizadas originalmente por povos nativo-americanos) para limpar a casa porque não usarmos plantas locais de Portugal? Temos o alecrim, a arruda e a sálvia comum que fazem exatamente o mesmo papel e são plantas presentes no nosso ecossistema local. Não só estamos a evitar sobre-exploração de uma planta, evitar apropriação cultural como ainda estamos a conectar-nos com a nossa flora local, utilizando plantas nativas da zona onde vivemos. 

Por fim, gostava de recomendar um artigo (em inglês) que li sobre a temática: "Cancelled for Renovations: More Thoughts on Closed Practices". Espero ter ajudado a esclarecer um pouco mais este tópico e sintam-se à vontade para dar as vossas opiniões (respeitosas, porque qualquer comentário extremista nem será aceite) nos comentários! 

Nota: Um agradecimento especial à Sininho que me ajudou a rever este texto! :) 

Um dos tópicos de bastante conversa e controvérsia nas nossas comunidades pagãs em geral é o tópico do Sacerdócio. Um Sacerdócio, dentro do Paganismo, pode significar várias coisas, ser alcançado de várias maneiras e pode dar discussões de vários assuntos. Este artigo não pretende desvalidar ou validar qualquer tipo de Sacerdócio e é apenas um artigo sobre acerca do que é o Sacerdócio e dar alguns exemplos de tipos de Sacerdócio. Para uma reflexão acerca da validez de Sacerdócios e de Iniciações, podem consultar este artigo aqui no blogue.

Um livro que recomendo muito sobre esta temática é o A Practical Guide to Pagan Priesthood, que já analisei aqui no blogue, e que acho ser uma leitura essencial para quem está interessado neste tipo de temática. 

Mas então, o que é um Sacerdócio? A definição de Sacerdócio é "Conjunto das funções e dignidade do ministro/sacerdote de um culto qualquer" . E um ministro/sacerdote é "Pessoa que fazia sacrifícios às divindades". OU "Pessoa que ministra os sacramentos de uma igreja." (definições de Dicionário Priberam da Língua Portuguesa). Ou seja, um Sacerdócio é o nome dado ao trabalho de um Sacerdote que é, para todos os efeitos, uma figura que presta serviços ou sacríficios a um determinado grupo religioso. Um exemplo comum de sacerdote é um padre de uma paróquia, por exemplo.

Dentro do Paganismo temos vários tipos de Sacerdócios. Temos Sacerdotes dentro da Wicca, onde é feito um período de treinamento e são feitos votos sacerdotais que podem ser renovados dependendo da súbida de níveis dentro da Tradição. Temos também dentro do Druidismo algumas organizações onde são feitos votos sacerdotais de serviços à comunidade. Dentro da Fellowship of Isis temos a possibilidade de ser realizado um Sacerdócio de forma a ser prestado trabalhos à comunidade em nome de Divindades (idealmente femininas). Também dentro da tradição de Glastonbury Goddess Temple, por exemplo, existe treinamento sacerdotal que concede títulos dentro da organização e da tradição em específico.

E existem muitas outras tradições e grupos religiosos que têm processos de treinamento que acabam por conferir graus sacerdotais (ou outros equivalentes, com nomes diferentes). A essência é a mesma: Alguém fica capacitade para servir a comunidade, dentro daquela tradição e nos moldes da mesma. E é, essencialmente, isso que é um Sacerdote/Sacerdotisa. Não se trata de um cargo por nome ou apenas para ter hierarquia sobre outra pessoa. É um cargo que representa um comprometimento com os Deuses e com a tradição onde ocorreu a iniciação, para prestar um serviço à comunidade e às Divindades. Este serviço pode ser prestado de diversas formas e há vários tipos de Sacerdotes e Sacerdotisas e várias formas de prestar os serviços. Pode ser através da organização de eventos para a comunidade, através do fornecimento de recursos, de acompanhamento de doentes ou pessoas em fim-de-semana, através de ajuda a grávidas e momentos de nascimento, acompanhamento emocional e de apoio à comunidade, através de serviços oraculares ou até de disponibilização do corpo como veículo para incorporações divinas, etc, etc. São imensas e variadas as formas como um Sacerdócio pode ser exercido e concretizado, dependendo apenas das pessoas envolvidas e dos moldes da tradição em que esta iniciação ocorre. 

Isto, para dizer, que um Sacerdócio não é algo que deve ser iniciado de ânimo leve. Acarreta um elevado nível de responsabilidade e de comprometimento por parte da pessoa que está a tomar os votos, porque vai estar a dedicar a sua vida ao serviço das Divindades e daquela Tradição, a partir daquele momento. Eu costumo dizer que é boa ideia comparar com os sacerdotes cristãos ou de outras vertentes mais estabelecidas: Um padre católico, por exemplo, faz vários sacríficios pessoais para exercer o seu cargo dentro da Igreja e assume um nível de responsabilidades e de comprometimento que, para todos os efeitos, é para a sua vida inteira. E um Sacerdote ou Sacerdotisa dentro do Paganismo deverá encarar o Sacerdócio da mesma forma. 

Mas sei o que questionam: "Se me tornar Sacerdote/Sacerdotisa, não posso desistir/parar?". Bem... Idealmente não, né? O ideal é que os votos sejam feitos para a vida. E é isso que a maioria dos Sacerdotes e Sacerdotisas faz, tal como os padres fazem. Mas, todos sabemos, que a vida é feita de mudanças e tal como há padres que saem da Igreja também há Sacerdotes/isas no Paganismo que acabam por sair dos seus serviços ou das suas tradições. Os moldes em que estas saídas saem são exclusivos de cada tradição e devem ser vistas dentro da mesma, pelo que não vou dizer o que faz ou deixa de fazer, porque vai depender de caminho para caminho. Mas, não podemos esquecer, que a tomada de votos sacerdotais é um comprometimento sério e deve ser levado com seriedade e conhecimento daquilo com que nos estamos a comprometer. 

E vocês, já conheciam? Conhecem Sacerdotes/isas? O que acham desta temática?

Ao longo da nossa prática mágica ou do nosso caminho espiritual vamos, eventualmente, ter mudanças. Sejam mudanças pequenas em que passamos a fazer certas práticas diferentes ou mudanças grandes em que mudamos completamente a nossa nomenclatura e a forma como encaramos a nossa prática, elas estarão presentes. Estamos errados se achamos que conseguimos ficar imutáveis durante 10, 20 ou até 30 anos. A mudança é (in)felizmente, inevitável. 

Recentemente passei exactamente por isso, por grandes mudanças na minha prática, daí querer trazer-vos esta temática para vos conseguir dar alguns conselhos que gostaria que me tivessem dado quando comecei este processo. Para quem me conhece, sabe que comecei a praticar quando ainda era adolescente e considerava-me "Wiccana Solitária", tendo passado a denominar-me como "Pagã Eclética" aos 18 anos. A partir daí foi sempre uma mudança entre Bruxa Eclética e Pagã Eclética, alternando às vezes com Bruxa Folk ou de Cozinha e por aí fora mas, na essência, a prática era sempre mais ou menos a mesma. Contudo foi em 2020/21 que as coisas mudaram, de uma forma inesperada. Apesar de já praticar há mais de uma década nessa altura, passei por mudanças ao ponto que mal me identifico com a prática que tinha antes destas mudanças. Descobri o Helenismo e finalmente aceitei que, apesar de adorar Bruxaria e adorar estudar sobre Bruxaria, não sou muito dada à sua prática, preferindo ficar-me pelo aspecto religioso e quotidiano, com ligeiro uso da Magia apenas para coisas como limpezas e proteções. Encontrei uma nova casa, digamos assim. 

Mas esta mudança não veio sem dificuldades! Tal como todas as mudanças, esta tirou-me da zona de conforto e atirou-me para dentro de um mar vasto, o qual desconhecia completamente. E é assustador. Seja qual o caminho para o qual estamos a mudar, acaba sempre por ser assustador, porque é como estivessemos a voltar à estaca zero. Quando já temos algum tempo de prática, temos tendência a ficar confortável no nosso nível de conhecimento. Vamos aprendendo mais coisas e acrescentando coisas mas é um crescimento mais gradual e mantendo-nos dentro da nossa zona conforto. Porém quando algo nos puxa para fora dessa zona e acabamos por entrar em toda uma nova divisão, é como descobrir uma nova zona do mapa, totalmente por descobrir e do qual não sabemos nada. E nesse momento passamos a não só ter de conhecer esta nova zona do mapa como conseguir conciliar com as zonas do mapa antigo que queremos manter. É como um puzzle que estamos a construir e quando chegamos ao fim surge mais um novo puzzle novo que se vai juntar ao nosso e temos de saber onde encaixar as nossas peças, mantendo algumas das iniciais. 

E isto é, sem dúvida, uma experiência avassaladora. Mas não é impossível de experienciar! Agora, em 2022, quase dois anos depois de ter começado estas mudanças, já me sinto mais confortável na minha pele e no meu novo caminho. Ainda há muita coisa por limar e aprimorar mas a parte mais díficil (o começar!) já está feito e agora é manter e ir caminhando, porque estas são aprendizagens para a vida inteira. E é por isso que gostava de partilhar convosco alguns conselhos que gostava que me tivessem dito quando comecei estas mudanças:

  • É válido mudar. É valido variar a nossa prática. A sociedade hoje em dia, principalmente nas comunidades online, pode levar-nos a achar que temos de ser sempre a mesma pessoa com os mesmos valores, crenças e métodos ao longo de toda a nossa existência mas isso não poderia estar mais longe da verdade. Enquanto seres humanos, somos seres mútaveis e a mudança é algo natural para nós, tal como para toda a Natureza em nosso redor. Não tenham medo de mudar algo se já não vos funciona ou se já não se identificam com isso. 
  • Não precisam de saber tudo assim que começam. Principalmente para quem já pratica a bastante tempo, e já tem algum conhecimento consolidado, pode ser assustador mudar um caminho de forma drástica, principalmente para um tipo de caminho que não conhecem tão bem. Passar da zona de conforto onde sabemos as bases todas para um novo sítio em que somos um novo aprendiz é assustador mas não é menos válido ou vergonhoso, pelo contrário! É normal, ao longo do nosso caminho, haver alturas em que não sabemos algo e que voltamos a ser iniciantes e isso vai acontecer em mais do que um momento. É apenas necessário embarcar na nossa jornada de aprendizagem, recolher fontes e livros e recursos e mergulhar em toda esta nova informação que está à nossa frente e começar a dar os primeiros passos. 
  • Vão haver pessoas que vão criticar. Seja nas comunidades do novo caminho que estamos a começar a trilhar ou nas comunidades onde estavam, há sempre gente que vai achar que por estarmos em espaços públicos que têm o direito de opinar sobre o que fazemos ou deixamos de fazer. Infelizmente, é inevitável. Contudo temos um poder especial: ignorar. Não me refiro ignorar críticas construtivas ou opiniões de pessoas que nos querem ajudar, mas sim ignorar aquelas vozes que insistem em meter defeitos nas coisas ou renunciar certos aspectos ou práticas apenas porque elas não coincidem com a sua prática pessoal. Um exemplo prático disso é o meu Sacerdócio. O meu Sacerdócio foi feito dentro da FOI e tem a sua forma de ser. Não é, nem será, um Sacerdócio dentro do Politeísmo Helénico, contudo, pode co-existir com o mesmo. Mas há muita gente que acha que não. E estão no seu direito... Elas ficam com a opinião e eu fico com o meu Sacerdócio e o meu caminho e vivemos todos contentes (eles provavelmente menos do que eu).
  • Mesmo dentro da mudança, podemos mudar novamente. Este não foi o meu caso, mas conheço amigues em situações semelhantes. Em que as suas práticas começaram a mudar e começaram a achar que a prática ia ser X e depois acabou por ser Y. Ou ainda passou pelo Y e ficou no Z. Entre outras combinações. A mudança não precisa de ser uma só, pode ser quantas forem necessárias até acertarmos na fórmula que funciona para a nossa prática individual e pessoal. Não há problema nisso e todos os tipos de mudanças são válidos. 
Estes são alguns dos conselhos que gostava de ter tido quando comecei as mudanças no meu caminho espiritual e mágico. E vocês, já tiveram mudanças assim? Que conselhos dariam para quem está a passar por isso?

Hoje vamos falar de uma prática que se está a tornar mais comum dentro do Paganismo chamado "Veiling" ou "Velar" (da palavra "véu"). Esta prática é famosa em vários caminhos religiosos, como o caso de algumas vertentes do Islamismo e do Cristianismo (como é o caso das freiras em Portugal) mas também no Paganismo se tem vindo a verificar um aumento desta prática, principalmente dentro de cultos mais reconstrucionistas ou folclóricos, dadas as ligações às tradições ou à reconstrução de práticas antigas, onde o véu era um artigo comum.  

Existem vários propósitos para os quais podem ser utilizado o véu numa prática moderna Pagã, sendo alguns exemplos:

Ferramenta para honrar uma divindade em específico: Existem várias divindades que, no seus cultos originários, eram adoradas com o uso de véus ou em que os véus possuíam um papel de importância, como é o caso da Deusa grega Héstia (muitos praticantes modernos de Héstia utilizam o véu como uma parte ativa do seu culto). 

Como forma de proteção pessoal: Muitos praticantes consideram que o véu na cabeça serve como uma forma de proteção pessoal, dado que o tecido está a proteger o cabelo e a cabeça e, dessa forma, repele as energias negativas e aquilo que possam enviar para a pessoa. Adicionalmente, muitos praticantes que utilizam o véu como uma ferramenta de proteção, complementam o mesmo com sigilos costurados no próprio véu ou utilizando combinações de cores com propósitos específicos. 

Como forma de evitar contactos espirituais: Muitos praticantes que trabalham com espíritos ou mediunidade optam por utilizar um véu porque sentem que os protege contra espíritos ou outro tipo de seres que possam querer contactar com os mesmos. Neste caso, estes praticantes sentem que o véu funciona como um barreira entre o mundo espiritual e o mundo físico e que os ajuda a manter-se presos no mundo físico, evitando contacto com espíritos ou outros seres em momentos nos quais não querem contacto com os mesmos. 

Como forma de honrar os seus antepassados: Muitos praticantes, principalmente de países onde o uso do véu era comum antigamente (como é o caso de Portugal em que muita da nossa população idosa usava e ainda usa véus para ir à missa e em zonas mais rurais), é também comum que muitos escolham por incluir o véu na sua prática como forma de honrar os seus antepassados, podendo até chegar a usar véus que os próprios antepassados utilizavam, de forma a aumentar ainda mais a ligação com os mesmos. 

As formas de usar os véus são muito variadas e podem ser adaptadas ao tipo de prática e preferência de cada um: Praticantes mais reconstrucionistas vão optar por procurar formas antigas de ser utilizado um véu e vão optar por adaptar o seu uso com esses métodos enquanto praticantes mais voltados para práticas folk vão acabar por usar métodos mais modernos e presentes nas culturas as quais se encontram ligados. E, no geral, é possível tirar inspiração de qualquer sítio, sendo que existem vários sites e vídeos online com ideias para o uso do véu, das mais variadas formas. 

Um vídeo (em inglês, infelizmente) que recomendo muito sobre esta prática é o du ChaoticWitchAunt acerca do uso do véu na sua prática, que não só fornece várias fontes e recursos acerca da prática mas também fala da sua prática pessoal, que pode ajudar ou até inspirar alguns praticantes que possam estar interessades!

E vocês, já conheciam esta prática? O que acham?

Hoje vamos falar de alguns tipos de cultos diferentes e explicar as suas diferenças. Por norma, quando chegamos ao Paganismo, ouvimos falar sobre o Culto aos Deuses mas só passado algum tempo é que descobrimos que existem outros tipos de cultos (inclusive, existem cultos para além dos que vou falar hoje!) e outras formas de praticar a religiosidade dentro de caminhos pagãos. 

Alguns dos cultos mais famosos quando começamos a aprender sobre Paganismo são: 
  • Deuses
  • Ancestrais
  • Heróis
  • Elementais
Contudo, existem muitos mais, dependendo das tradições e das visões religiosas de cada praticante. Hoje vamos falar um pouco de alguns cultos mais famosos. 

  • Culto aos Deuses 
Este é o tipo de culto mais famoso e é, como o nome indica, o culto a divindades. Seja apenas a uma divindade, a um casal divino ou a um conjunto/panteão de divindades, este culto é literalmente apenas adorar, respeitar e honrar Divindades. Nós falamos um pouco mais sobre como começar este tipo de devoção neste artigo. 

  • Culto aos Ancestrais
Este tipo de culto é comum em tradições mais voltadas para práticas tradicionais (como Bruxaria Tradicional/Folk) ou para práticas reconstrucionistas onde haja um caractér de respeito a Ancestrais (como é o caso do Helenismo). Este tipo de culto é um culto diferente do culto de Divindades, por não é baseado no honrar uma divindade/ser superior mas sim no honrar e respeitar aqueles que vieram antes de nós, muitas vezes membros das nossas famílias. Há quem, inclusive, não goste de lhe chamar "culto" e chamar apenas como honra aos ancestrais. Neste tipo de prática é comum ser criado um altar com fotos das pessoas ou animais que estamos a honrar como avós e bisavós que já faleceram e colocar oferendas e queimar velas em honra das pessoas que já partiram. O propósito deste culto não é tanto o de receber algo em troca mas sim em conectar com o nosso passado, com os nossos ancestrais e ter a sua orientação e ajuda ao longo do nosso caminho presente. 

  • Culto aos Heróis
Este é outro tipo de culto que é raro de se encontrar, sendo mais comum em práticas reconstrucionistas como é o caso do Helenismo. Neste tipo de culto, que é semelhante ao culto dos Ancestrais, honram-se os heróis. Podem ser heróis mitológicos (Aquiles, Odysseus, Theseus, etc) ou heróis contemporâneos que ficam ao critério do praticante. Qualquer tipo de figura que o praticante considere como sendo um herói (activista, guerreiro, escritor, etc.) pode ser encaixado no culto aos Heróis. Funciona de forma semelhante aos ancestrais, com um pequeno altar com fotos ou representações e oferendas frequentes com pedidos de inspiração ou de orientação para os nossos caminhos pessoais. 

  • Culto aos Elementais 
O culto aos elementais já é um culto mais frequente nas comunidades de Paganismo em geral, principalmente entre praticantes de Paganismo Eclético. Este tipo de culto é mais semelhante aos cultos dos Deuses, com a diferença que ao invés de serem cultadas Divindades são cultuados Elementais como Fadas, Gnomos, Salamandras, Sereias, Ondinas, Ninfas, etc. A nível de forma de trabalho religioso a prática é, na maioria dos casos, semelhante à dos Deuses com oferendas e altares construídos e práticas regulares de adoração aos elementais em causa. 


Para além destes cultos existem muitos outros, dentro e fora do Paganismo e da Bruxaria, como anjos, demónios, santos, espíritos locais, etc. A religiosidade é um campo muito vasto e complexo, com diversas opções por onde escolher e seguir, inclusive misturas de mais do que um. Não se sintam limitados a prestar culto apenas a um destes tipos de cultos, podem conjungá-los, misturá-los e práticá-los de formas diferentes e adaptadas aos vossos caminhos pessoais. Estes são apenas alguns exemplos!

E vocês? Já conheciam estes cultos? 

Ao contrário de muitos outros caminhos religiosos que possuem uma estrutura centralizada de poder (ex: Igreja Católica), o Paganismo e a Bruxaria não possuem chefes religiosos ou sacerdotes a uma escala global ou sequer nacional. Temos várias organizações e grupos como a Pagan Federation ou a Ordem dos Bardos, Ovates e Druidas que vão fornecendo conteúdos e criando recursos e eventos para as comunidades, mas não temos pessoas a ditar regras nem livros sagrados com todos os ensinamentos. E isso é bom! Aliás é um dos grandes motivos de atração do Paganismo e Bruxaria para a maioria das pessoas, é exatamente a liberdade de culto e de trabalho que existe dentro das mais variadas tradições e caminhos. Contudo isto também leva a que muitos de nós acabemos por cair num erro que acaba por nos prejudicar a nós e, no geral, às nossas comunidades que é o "Culto de Personalidades". 

O que é isto do "Culto de Personalidades"? Bem, é uma coisa que todos nós já ouvimos falar, principalmente fora das nossas comunidades. Situações em que pessoas famosas ganham seguidores que quase se tornam cultuadores daquela figura que criaram na sua mente e fazem da pessoa famosa como se fosse um ser sagrado que não pode cometer erros, não pode dizer nada de errado e que é perfeito em todos os momentos. Claro que rapidamente esta imagem vai acabar por se partir, mais cedo ou mais tarde, mas a realidade é que isto é uma presença na nossa actualidade, em vários campos da vida. E o Paganismo e a Bruxaria, infelizmente, não são excepção. 

Este é um tópico que é muito falado nas comunidades internacionais, principalmente inglesas, e acima de tudo chamado a atenção por parte de membros das nossas comunidades que sentem que eles próprios estão a ser alvos disto. Temos várias situações em que são criados imensos dramas nas comunidades, principalmente a nível do Witchtok (TikTok) e das comunidades bruxescas no Twitter, em torno de pessoas famosas como autores ou criadores de conteúdo. Batalhas de "ela disse vs ele disse", discussões de quem fez feitiços para quem, discussões sobre egos, etc. Acho que todos nós, a certa altura, já vimos situações destas. Elas não são inevitáveis, infelizmente, contudo há algo que podemos fazer para evitar deixar-nos cair nestes discursos e o primeiro passo é reconhecer que somos todos humanos. Até os autores mais famosos de Paganismo e Bruxaria como o Scott Cunningham e o Raymond Buckland ou a Doreen Valiente eram humanos. Iam à casa de banho, lavavam a louça, passavam a roupa a ferro e tropeçavam quando estavam a andar. Nós podemos gostar e respeitar o seu trabalho e a sua influência nas nossas comunidades sem cairmos no erro de os elevar a uma espécie de "ser sagrado que não comete erros e é perfeito". E quem diz estes autores (que já faleceram) diz também autores e criadores de conteúdos na actualidade, como pessoas no TikTok ou pessoas no Twitter. Todos nós somos humanos e todos nós estamos em constante aprendizagem. Como a minha mãe dizia "Ninguém é mais do que ninguém". Claro que há quem tenha mais experiência que nós e há quem tenha mais conhecimento ou seja mais velho. Também há quem tenha cargos de poder dentro das nossas comunidades como Sacerdotes em Tradições Específicas ou Presidentes de Associação. Contudo, e este ponto é importante, mesmo as pessoas nesses cargos não deixam de ser humanas. Existe uma diferença entre tratar alguém com respeito (e até com admiração) e tratar alguém como se fosse uma "quase divindade" e é aqui que é preciso manter a atenção, para garantir que não atravessamos a linha. 

Eu trouxe este tópico aqui ao blogue principalmente porque vi vários pedidos e alertas, nos últimos meses, nas redes sociais por parte de criadores de conteúdos que se estavam a sentir incomodades por pessoas que insistiam em vê-los de uma forma incorreta e que os deixava desconfortáveis. E dado concordar que é uma temática importante, optei por trazê-la para o destaque aqui no blogue e abrir discussão sobre a temática! 

E vocês, o que acham? 

Hoje vamos falar de um tópico que é sempre famoso nas nossas comunidades: As Iniciações (e, por sua vez, Sacerdócios). Eu costumo dizer que a conversa das iniciações é como as ondas, vai e volta, porque há sempre alturas em que está em destaque dentro das nossas comunidades. Antes de começar a falar desta temática, quero deixar claro que não sou contra iniciações (pelo contrário, eu própria fui ordenada e iniciada como Sacerdotisa dentro da Fellowship of Isis). O propósito deste texto não é tirar valor às iniciações, mas sim dar a entender uma perspectiva diferente, principalmente quando falamos das nossas comunidades de Paganismo a uma escala mundial. 

Existem vários tipos de iniciação: 
  • Iniciações dentro de covens, 
  • Iniciações em associações secretas
  • Iniciações em organizações mundiais
  • Iniciações dentro de Tradições específicas
  • E outras.
E todas as iniciações têm um propósito: Um iniciado na Tradição da Wicca tem um determinado papel e hierarquia dentro do seu coven e da sua tradição. Um iniciado dentro da Fellowship of Isis tem ao seu dispor vários tipos de recursos ou de outros níveis de iniciação aos quais queira se dedicar. Uma pessoa auto-iniciada tem o conforto de se auto-denominar como algo. Todas as iniciações têm um propósito, contudo, há que entender os seus contextos. E acho que o melhor, para explicar isto, será um exemplo prático:

Eu fui ordenada Sacerdotisa no ano de 2018 dentro da Fellowship of Isis. A partir dessa data, tornei-me Sacerdotisa de Hekate e Persephone e tenho autoridade para iniciar outros Sacerdotes/isas dentro da FOI e tenho autorização para fundar um Iseum (podem visitar a página do meu Iseum aqui). Fantástico, não é? Contudo, também tenho a noção, de que o facto de eu ser iniciada dentro da Fellowship of Isis não significa que, se me juntar a um coven Wiccano, tenha direito automático à iniciação deles. Ou que até tenha "equivalências" a Graus Wiccanos. São iniciações diferentes e para propósitos diferentes. Tal como, no meu caso, me juntei a comunidades de Paganismo Helénico e tenho a total noção de que ninguém me vai reconhecer como Sacerdotisa. Podem reconhecer que tenho a minha ordenação de Sacerdotisa dentro da Fellowship of Isis mas, para um Pagão Helénico, isso não significa nada porque o conceito de Sacerdócio no Helenismo é completamente diferente do conceito de Sacerdócio dentro da Fellowship of Isis. 

E o mesmo acontece em cenários opostos: Só porque alguém é um Sacerdote Wiccano não quer dizer que tenha direito automático a ser um Sacerdote dentro da Fellowship of Isis ou que seja reconhecido como um Sacerdócio por Pagãos Helénicos. E o mesmo acontece com outras religiosidades. Um exemplo ainda mais claro é os Sacerdotes Pagãos e os Sacerdotes Cristãos: Um sacerdote pagão reconhece que o sacerdote católico tem a sua formação e a sua validez dentro da Igreja Católica contudo, para o pagão, isso não tem qualquer impacto ou reconhecimento na sua prática individual. E vice-versa. Ou seja as iniciações são, acima de tudo, para os próprios iniciades e para a própria Tradição ou Grupo ou Organização em que as pessoas estão inseridas e não necessariamente para a comunidade externa (a menos que haja algum tipo de serviço a ser prestado à comunidade externa, contudo, isso não implica que as pessoas sejam obrigadas a reconhecer cargos de poder com os quais não se sentem confortáveis). 

Com isto quero concluir que as iniciações SÃO válidas. E são parte fulcral de vários caminhos dentro do Paganismo e da Bruxaria e são momentos lindíssimos de transformação e de evolução no caminho pessoal de cada um. Contudo... não são obrigatórias para toda a gente. Nem são certas para toda a gente. Uma iniciação vai sempre trazer responsabilidades com isso, seja a nível do Sacerdócio (que foi aqui falado acima de tudo, dado que a grande maioria das iniciações acaba por acarretar um Sacerdócio com ela) ou a nível de responsabilidades acrescidas que ficam atribuídas ao iniciado. Não há problema em não querer ser iniciado e isso não faz a prática de alguém menos válida do que a prática de alguém que é iniciado. E alguém iniciado não quer dizer que seja mais do que outros não iniciados, principalmente pessoas fora da sua Tradição/Organização. E acho que é isto que não é falado vezes suficientes nas nossas comunidades, acabando por ser perpetuado um discurso de "superioridade" por parte de quem tem mais iniciações o que, na minha honesta opinião, é um comportamento desnecessário e que faz mais mal do que bem. 

E vocês, o que acham? 

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Sob o Luar by Alexia Moon/Mónica Ferreira is licensed under CC BY-NC-ND 4.0