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Sob o Luar


Hoje vamos falar de um tópico que é sensível mas importante de ser referido nas nossas comunidades: A ética por detrás dos cristais e de (algumas) plantas. 

Muitos de nós quando começamos a praticar Bruxaria (ou Paganismo) sentimo-nos rapidamente atraídos pela quantidade enorme de cristais bonitos e muitas cores que vemos nas lojas esotéricas e nos feeds das redes sociais de outros praticantes. E, é normal, que acabemos por começar a comprar os nossos próprios cristais, começar a nossa própria coleção e começar a trabalhar com eles. Mesma coisa com as plantas, vemos alguém a queimar sálvia ou palo santo e achamos que temos de ter aquilo ou a nossa prática "não é tão boa" ou "não é completa". E como estamos no início, nem nos lembramos de investigar mais sobre estas coisas e se realmente as devemos fazer. E é disso que venho falar hoje. 

Começando pelos cristais, porque razão é que devemos ter atenção à forma como compramos e adquirimos cristais? A maioria dos cristais são minados em minas espalhadas pelo mundo inteiro, com principal foco em países da América do Sul, Ásia ou África. É comum que muitas destas minas alberguem trabalhadores em condições de pobreza extrema (ou até de exploração/escravatura/trabalho forçado) ou, em muitos casos, trabalhos infantis. Em 2019 o jornal o Guardian reportou que cerca de 85 mil crianças estavam a trabalhar em minas de exploração de cristais (como turmalina ou cornalina) em Madásgascar. E são esses cristais que depois são vendidos para países ocidentais com o objetivo de serem vendidos a preços exurbitantes e como "ferramentas de cura", enquanto as pessoas que estiveram nas minas vivem em pobreza e exploração. Para além destes dois factores, também a saúde das pessoas que trabalham nestas minas estão gravemente comprometida dado que o trabalho de polir cristais liberta vários tóxicos prejudiciais à saúde e principalmente aos sistemas respiratórios. E, infelizmente, grande parte destas minas não disponibiliza aos seus trabalhadores material apropriado para a sua própria proteção.

Para além do impacto nas pessoas que estão envolvidas diretamente no processo de extração dos minerais/cristais, também a própria natureza é afectada por esta atividade que tem tendência a criar contaminação de água potável e de vias aquáticas em redor das minas ou, até, destruindo habitats e cortando florestas para aceder a zonas passíveis de serem minadas. 

Fez-te impressão ler isto? Acredito que sim mas, infelizmente, é a realidade associada ao comércio e à obtenção de cristais e pedras preciosas e para o qual estamos diretamente a contribuir quando não temos cuidado na obtenção dos nossos cristais. Sim, porque há formas de evitar isto! Como evitar? Bem...
  • Tenta comprar sempre cristais em segunda mão, através de lojas de velharias, OLXs, Vinted, Facebook Marketplace, etc. 
  • Caso não consigas comprar em segunda mão, investiga bem as lojas a partir das quais estás a comprar os teus cristais e garante que a mesma consegue garantir (ou melhor ainda, tem política pública sobre o assunto) que os cristais são fornecidos de forma ética. Há vários fornecedores hoje em dia que garantem que a exploração dos cristais é feita de forma ética e cuidada através de um controlo apertado das condições e políticas em vigor em cada uma das minas. 
  • Utiliza cristais que encontres perto de ti! Procura na tua zona, principalmente perto de rios ou montanhas, e de certeza que encontrarás vários cristais, principalmente da família de quartzos que podem ser utilizados na tua prática. Não precisas de ter a malachite topo de gama para um feitiço funcionar, um quartzo encontrado no teu quintal é um excelente aliado (e que te pode ajudar a conectar melhor com a tua terra e local onde vives). 
E a nível das ervas? Este é outro ponto importante nas nossas comunidades, contudo, vou apenas falar de duas plantas específicas que se tornaram virais e muito famosas nas redes sociais devido ao seu uso abusivo por parte de praticantes de new-age americanos que é a "Sálvia Branca" e o "Palo Santo". Estes dois tipos de planta são nativos das Américas e não existem (de forma natural/nativa) em territórios europeus. São plantas habitualmente utilizadas por povos indígenas em cerimónias religiosas e nos seus cultos pessoais contudo, ao longo dos últimos anos, vieram a ser apropriadas por praticantes de tradições new-age que acabaram por fomentar uma exploração de forma abusiva destas plantas que não só tem um impacto forte no ambiente (a sobre-exploração de uma planta acaba por criar complicações no solo e nos locais onde a mesma está a ser constante explorada) e, também, de um impacto forte a nível social, em que estas ervas são apropriadas aos povos indígenas (mais infos aqui). E, hoje em dia, é comum ver estas plantas à venda em imensas lojas esotéricas espalhadas por Portugal, inclusive a preços exorbitantes. 

E a realidade é que nós não precisamos destas ervas. Sim, leram bem, não precisamos destas ervas. Portugal tem imensas plantas que lhe são nativas e que possuem exatamente os mesmos propósitos que a sálvia branca e o palo santos fazem, como o alecrim, a arruda, a sálvia normal, etc. São plantas que são nativas do nosso território, que são fáceis de plantar e de cuidar (inclusive em vasos) e que podem ser utilizadas para todas as coisas nas quais utilizariam as outras duas plantas. E com ainda mais vantagens! Principalmente as de que não estamos a importar plantas que precisam de vir do outro lado do mundo (e, por consequência, trazem consigo uma pegada ecológica muito má) e também porque ao estarmos a trabalhar com plantas que são nativas do local onde vivemos, acabamos por criar uma ligação ainda mais estreita com a flora e a natureza do local onde vivemos. As plantas são nossos aliados na nossa prática e nada melhor do que nos conectar com elas no seu local natural, ao invés de estarmos a mandar vir plantas de outro lado do mundo. 
 
E vocês? Já sabiam disto? 

Hoje vamos falar de alguns tipos de cultos diferentes e explicar as suas diferenças. Por norma, quando chegamos ao Paganismo, ouvimos falar sobre o Culto aos Deuses mas só passado algum tempo é que descobrimos que existem outros tipos de cultos (inclusive, existem cultos para além dos que vou falar hoje!) e outras formas de praticar a religiosidade dentro de caminhos pagãos. 

Alguns dos cultos mais famosos quando começamos a aprender sobre Paganismo são: 
  • Deuses
  • Ancestrais
  • Heróis
  • Elementais
Contudo, existem muitos mais, dependendo das tradições e das visões religiosas de cada praticante. Hoje vamos falar um pouco de alguns cultos mais famosos. 

  • Culto aos Deuses 
Este é o tipo de culto mais famoso e é, como o nome indica, o culto a divindades. Seja apenas a uma divindade, a um casal divino ou a um conjunto/panteão de divindades, este culto é literalmente apenas adorar, respeitar e honrar Divindades. Nós falamos um pouco mais sobre como começar este tipo de devoção neste artigo. 

  • Culto aos Ancestrais
Este tipo de culto é comum em tradições mais voltadas para práticas tradicionais (como Bruxaria Tradicional/Folk) ou para práticas reconstrucionistas onde haja um caractér de respeito a Ancestrais (como é o caso do Helenismo). Este tipo de culto é um culto diferente do culto de Divindades, por não é baseado no honrar uma divindade/ser superior mas sim no honrar e respeitar aqueles que vieram antes de nós, muitas vezes membros das nossas famílias. Há quem, inclusive, não goste de lhe chamar "culto" e chamar apenas como honra aos ancestrais. Neste tipo de prática é comum ser criado um altar com fotos das pessoas ou animais que estamos a honrar como avós e bisavós que já faleceram e colocar oferendas e queimar velas em honra das pessoas que já partiram. O propósito deste culto não é tanto o de receber algo em troca mas sim em conectar com o nosso passado, com os nossos ancestrais e ter a sua orientação e ajuda ao longo do nosso caminho presente. 

  • Culto aos Heróis
Este é outro tipo de culto que é raro de se encontrar, sendo mais comum em práticas reconstrucionistas como é o caso do Helenismo. Neste tipo de culto, que é semelhante ao culto dos Ancestrais, honram-se os heróis. Podem ser heróis mitológicos (Aquiles, Odysseus, Theseus, etc) ou heróis contemporâneos que ficam ao critério do praticante. Qualquer tipo de figura que o praticante considere como sendo um herói (activista, guerreiro, escritor, etc.) pode ser encaixado no culto aos Heróis. Funciona de forma semelhante aos ancestrais, com um pequeno altar com fotos ou representações e oferendas frequentes com pedidos de inspiração ou de orientação para os nossos caminhos pessoais. 

  • Culto aos Elementais 
O culto aos elementais já é um culto mais frequente nas comunidades de Paganismo em geral, principalmente entre praticantes de Paganismo Eclético. Este tipo de culto é mais semelhante aos cultos dos Deuses, com a diferença que ao invés de serem cultadas Divindades são cultuados Elementais como Fadas, Gnomos, Salamandras, Sereias, Ondinas, Ninfas, etc. A nível de forma de trabalho religioso a prática é, na maioria dos casos, semelhante à dos Deuses com oferendas e altares construídos e práticas regulares de adoração aos elementais em causa. 


Para além destes cultos existem muitos outros, dentro e fora do Paganismo e da Bruxaria, como anjos, demónios, santos, espíritos locais, etc. A religiosidade é um campo muito vasto e complexo, com diversas opções por onde escolher e seguir, inclusive misturas de mais do que um. Não se sintam limitados a prestar culto apenas a um destes tipos de cultos, podem conjungá-los, misturá-los e práticá-los de formas diferentes e adaptadas aos vossos caminhos pessoais. Estes são apenas alguns exemplos!

E vocês? Já conheciam estes cultos? 

Títulos dos Livros: 
  • "The Complete Book of Incense, Oils and Brews" / "Livro Completo de Óleos, Incensos e Infusões"
  • "Cunningham's Encyclopedia of Wicca in the Kitchen" / "Enciclopédia de Wicca na Cozinha"
  • "Cunningham's Encyclopedia of Magical Herbs" / "Enciclopédia das Ervas Magicas do Cunningham"
  • "Cunningham's Encyclopedia of Crystal, Gem & Metal Magic" / "Enciclopédia Cunningham de Magia com Cristais, Gemas e Metais"
Autor(es): Scott Cunningham
Pontuação: ★★★★★
Onde Comprar*: Em inglês podem ser adquiridos na Blackwells e em Português podem ser adquiridos na Livraria Senda ou na Wook. 

Análise: Hoje venho falar de 4 livros ao mesmo tempo! Porquê? Porque sinto que estes livros funcionam na perfeição em conjunto e considero-os como sendo dos mais essenciais da minha estante e da minha prática. Durante muitos anos andei a tentar arranjar uma forma de ter todas as correspondências, de todas as coisas, nos meus livros das sombras. Mas rapidamente cheguei à conclusão que era quase impossível. As listas de ervas são enormes, cristais a mesma coisa e nem vamos falar quando colocamos alimentos à mistura! Quer em formato digital ou em formato papel, era sempre algo complicado de fazer e nunca ficava satisfeita. 

Foi nessa altura que acabei por encontrar estes livros e chegar à conclusão que não preciso de ter tudo nos meus livros das sombras ou cadernos. E que posso ter apenas livros aos quais recorro com essa informação. E, para mim, estes quatro livros são essencialmente isso: São excelentes livros de referência, com imensos recursos e listagens de ingredientes e as suas propriedades. Cada livro aborda a sua específica temática (cristais e metais, incensos e óleos, alimentos, ervas, etc.) e está cheio de recursos relacionados com a mesma. Não se trata apenas de livros de referências mas também de aprendizagem, que inclusive inclui receitas, dicas, avisos e imensa informação útil acerca de cada temática. E, felizmente, a grande maioria já foi traduzida para português, estando mais acessível a pessoas que não conseguem ler ou não se sentem confortáveis a ler em inglês. 

Pessoalmente, na minha prática individual, estes livros sempre foram extremamente úteis e continuam a ser. Estão cheios de apontamentos, rascunhos, post-its, etc. Claro que alguns livros, principalmente o de Ervas e Plantas, acaba por não ter ervas que sejam nativas de Portugal (e que não estejam nos EUA, país de origem do autor) mas facilmente resolvo isso adicionando páginas com um clipe ou adicionando informação a post-its no interior do livro. Para mim, estes livros são essenciais!

E vocês? Já leram? Que acharam? 

* Os links fornecidos podem pertencer a 'Affiliate Programs' e geram uma taxa de lucro ao Sob o Luar. Não existe qualquer despesa adicional para o comprador. 

Hoje vamos continuar com a nossa série de artigos onde abordamos as divindades. Vamos falar sobre os seus mitos, as suas associações e um pouco da sua história. Estes artigos não têm como objectivo substituir a investigação sobre as divindades mas sim despoletar interesse e, também, fornecer alguns pontos de partida para iniciar contacto com as Deusas e Deuses de que falaremos. 

As informações contidas nestes artigos não são suficientes para sustentar uma prática de culto a uma divindade e investigação adicional é sempre necessária. No fundo de cada artigo deixamos uma lista de sites e livros recomendados sobre cada divindade, de forma a que possam explorar mais sobre cada Deusa e Deus que falamos aqui. Ao longo do artigo vamos deixando também links para informações adicionais e explorações aprofundadas de certos tópicos. 

Nota Importante: Este artigo é exclusivamente sobre o Deus Hermes enquanto divindade do Políteismo Grego, não sendo sobre a figura de Hermes Trismegistus que é frequentemente confundida com o mesmo. 

***

Nome: Hermes (Ἑρμης)

Panteão: Grego

História e Mitologia: Hermes é uma divindade grega, filho de Zeus e de Maia (a mais velha das irmãs ninfas Pleiades). Um dos seus mitos mais famosos é o mito do seu nascimento em que o Deus Hermes nasceu numa caverna, de sua mãe Maia, e apesar de estar enrolado em mantas no seu berço, o Deus fugiu e conseguiu chegar até Pieria, onde roubou algum do gado do Deus Apollo, escondendo-o em Pylos. Enquanto estava em Pylos, o Deus Hermes encontrou uma tartaruga na parte de fora da caverna e, trazendo para o interior, utilizou a sua carapaça para fazer a primeira lira. Quando Apollo o tentou confrontar, Hermes estava enrolado nas mantas no colo da sua mãe. Não convencido que o Deus Hermes não estivesse envolvido, Apollo solicitou a Zeus que mediasse a situação e o mesmo convenceu Hermes a devolver o gado. Contudo, quando Apollo viu a lira que Hermes tinha criado, aceitou trocar o seu gado pela lira, tornando-a um dos seus símbolos. Outros dois mitos em que existe uma presença importante do Deus Hermes são o mito de Perseu, em que Hermes auxiliou o herói na sua demanda para matar a Gorgon Medusa e o mito de Odisseu em que o Deus auxilia-o a proteger-se da magia da Deusa Circe. 

Celebrações: O culto a Hermes estava bem espalhado pela região grega na antiguidade, com destaque para o festival de Hermaea que era organizado anualmente em honra ao Deus Hermes, na zona da Arcádia. Adicionalmente, estátuas de Hermes (denominadas "Hermae") eram comuns de ser encontradas espalhadas por toda a Grécia, principalmente à entrada de cidades ou em cruzamentos para conceder proteção aos viajantes. 

Geneologia: Filho de Zeus e de Maia, são-lhe atribuídos diversos filhos como o Deus Pan e variados filhos mortais, principalmente Reis. Para ver a genealogia completa de Hermes recomendo ver AQUI. 

Epítetos: Enodios ("da estrada"), Khthonios ("da terra"), Nomios ("protetor de rebanhos"), Propylaios ("dos Portões"), Psychopompos ("Guia das Almas"), Angelos Athanatôn ("Mensageiros do Deuses"), entre outros.  

Símbolos: Um dos principais símbolos de Hermes é o famoso Caduceu (um bastão em torno do qual estão enroladas duas serpentes e cujo topo tem duas asas). É também reconhecido pelas botas ou pelo chapéu com asas ou, no seu aspecto de protetor dos viajantes, com o chapéu de viajante que é lhe é característico. Os seus animais sagrados são o bode e a lebre, estando também associado a todo o gado em geral. 

Leitura Recomendada: 
  • Theoi - Hermes
  • Helenos BR
  • Hino Homérico a Hermes (para a história do seu nascimento)

Ao contrário de muitos outros caminhos religiosos que possuem uma estrutura centralizada de poder (ex: Igreja Católica), o Paganismo e a Bruxaria não possuem chefes religiosos ou sacerdotes a uma escala global ou sequer nacional. Temos várias organizações e grupos como a Pagan Federation ou a Ordem dos Bardos, Ovates e Druidas que vão fornecendo conteúdos e criando recursos e eventos para as comunidades, mas não temos pessoas a ditar regras nem livros sagrados com todos os ensinamentos. E isso é bom! Aliás é um dos grandes motivos de atração do Paganismo e Bruxaria para a maioria das pessoas, é exatamente a liberdade de culto e de trabalho que existe dentro das mais variadas tradições e caminhos. Contudo isto também leva a que muitos de nós acabemos por cair num erro que acaba por nos prejudicar a nós e, no geral, às nossas comunidades que é o "Culto de Personalidades". 

O que é isto do "Culto de Personalidades"? Bem, é uma coisa que todos nós já ouvimos falar, principalmente fora das nossas comunidades. Situações em que pessoas famosas ganham seguidores que quase se tornam cultuadores daquela figura que criaram na sua mente e fazem da pessoa famosa como se fosse um ser sagrado que não pode cometer erros, não pode dizer nada de errado e que é perfeito em todos os momentos. Claro que rapidamente esta imagem vai acabar por se partir, mais cedo ou mais tarde, mas a realidade é que isto é uma presença na nossa actualidade, em vários campos da vida. E o Paganismo e a Bruxaria, infelizmente, não são excepção. 

Este é um tópico que é muito falado nas comunidades internacionais, principalmente inglesas, e acima de tudo chamado a atenção por parte de membros das nossas comunidades que sentem que eles próprios estão a ser alvos disto. Temos várias situações em que são criados imensos dramas nas comunidades, principalmente a nível do Witchtok (TikTok) e das comunidades bruxescas no Twitter, em torno de pessoas famosas como autores ou criadores de conteúdo. Batalhas de "ela disse vs ele disse", discussões de quem fez feitiços para quem, discussões sobre egos, etc. Acho que todos nós, a certa altura, já vimos situações destas. Elas não são inevitáveis, infelizmente, contudo há algo que podemos fazer para evitar deixar-nos cair nestes discursos e o primeiro passo é reconhecer que somos todos humanos. Até os autores mais famosos de Paganismo e Bruxaria como o Scott Cunningham e o Raymond Buckland ou a Doreen Valiente eram humanos. Iam à casa de banho, lavavam a louça, passavam a roupa a ferro e tropeçavam quando estavam a andar. Nós podemos gostar e respeitar o seu trabalho e a sua influência nas nossas comunidades sem cairmos no erro de os elevar a uma espécie de "ser sagrado que não comete erros e é perfeito". E quem diz estes autores (que já faleceram) diz também autores e criadores de conteúdos na actualidade, como pessoas no TikTok ou pessoas no Twitter. Todos nós somos humanos e todos nós estamos em constante aprendizagem. Como a minha mãe dizia "Ninguém é mais do que ninguém". Claro que há quem tenha mais experiência que nós e há quem tenha mais conhecimento ou seja mais velho. Também há quem tenha cargos de poder dentro das nossas comunidades como Sacerdotes em Tradições Específicas ou Presidentes de Associação. Contudo, e este ponto é importante, mesmo as pessoas nesses cargos não deixam de ser humanas. Existe uma diferença entre tratar alguém com respeito (e até com admiração) e tratar alguém como se fosse uma "quase divindade" e é aqui que é preciso manter a atenção, para garantir que não atravessamos a linha. 

Eu trouxe este tópico aqui ao blogue principalmente porque vi vários pedidos e alertas, nos últimos meses, nas redes sociais por parte de criadores de conteúdos que se estavam a sentir incomodades por pessoas que insistiam em vê-los de uma forma incorreta e que os deixava desconfortáveis. E dado concordar que é uma temática importante, optei por trazê-la para o destaque aqui no blogue e abrir discussão sobre a temática! 

E vocês, o que acham? 

Hoje vamos falar de um tópico que é sempre famoso nas nossas comunidades: As Iniciações (e, por sua vez, Sacerdócios). Eu costumo dizer que a conversa das iniciações é como as ondas, vai e volta, porque há sempre alturas em que está em destaque dentro das nossas comunidades. Antes de começar a falar desta temática, quero deixar claro que não sou contra iniciações (pelo contrário, eu própria fui ordenada e iniciada como Sacerdotisa dentro da Fellowship of Isis). O propósito deste texto não é tirar valor às iniciações, mas sim dar a entender uma perspectiva diferente, principalmente quando falamos das nossas comunidades de Paganismo a uma escala mundial. 

Existem vários tipos de iniciação: 
  • Iniciações dentro de covens, 
  • Iniciações em associações secretas
  • Iniciações em organizações mundiais
  • Iniciações dentro de Tradições específicas
  • E outras.
E todas as iniciações têm um propósito: Um iniciado na Tradição da Wicca tem um determinado papel e hierarquia dentro do seu coven e da sua tradição. Um iniciado dentro da Fellowship of Isis tem ao seu dispor vários tipos de recursos ou de outros níveis de iniciação aos quais queira se dedicar. Uma pessoa auto-iniciada tem o conforto de se auto-denominar como algo. Todas as iniciações têm um propósito, contudo, há que entender os seus contextos. E acho que o melhor, para explicar isto, será um exemplo prático:

Eu fui ordenada Sacerdotisa no ano de 2018 dentro da Fellowship of Isis. A partir dessa data, tornei-me Sacerdotisa de Hekate e Persephone e tenho autoridade para iniciar outros Sacerdotes/isas dentro da FOI e tenho autorização para fundar um Iseum (podem visitar a página do meu Iseum aqui). Fantástico, não é? Contudo, também tenho a noção, de que o facto de eu ser iniciada dentro da Fellowship of Isis não significa que, se me juntar a um coven Wiccano, tenha direito automático à iniciação deles. Ou que até tenha "equivalências" a Graus Wiccanos. São iniciações diferentes e para propósitos diferentes. Tal como, no meu caso, me juntei a comunidades de Paganismo Helénico e tenho a total noção de que ninguém me vai reconhecer como Sacerdotisa. Podem reconhecer que tenho a minha ordenação de Sacerdotisa dentro da Fellowship of Isis mas, para um Pagão Helénico, isso não significa nada porque o conceito de Sacerdócio no Helenismo é completamente diferente do conceito de Sacerdócio dentro da Fellowship of Isis. 

E o mesmo acontece em cenários opostos: Só porque alguém é um Sacerdote Wiccano não quer dizer que tenha direito automático a ser um Sacerdote dentro da Fellowship of Isis ou que seja reconhecido como um Sacerdócio por Pagãos Helénicos. E o mesmo acontece com outras religiosidades. Um exemplo ainda mais claro é os Sacerdotes Pagãos e os Sacerdotes Cristãos: Um sacerdote pagão reconhece que o sacerdote católico tem a sua formação e a sua validez dentro da Igreja Católica contudo, para o pagão, isso não tem qualquer impacto ou reconhecimento na sua prática individual. E vice-versa. Ou seja as iniciações são, acima de tudo, para os próprios iniciades e para a própria Tradição ou Grupo ou Organização em que as pessoas estão inseridas e não necessariamente para a comunidade externa (a menos que haja algum tipo de serviço a ser prestado à comunidade externa, contudo, isso não implica que as pessoas sejam obrigadas a reconhecer cargos de poder com os quais não se sentem confortáveis). 

Com isto quero concluir que as iniciações SÃO válidas. E são parte fulcral de vários caminhos dentro do Paganismo e da Bruxaria e são momentos lindíssimos de transformação e de evolução no caminho pessoal de cada um. Contudo... não são obrigatórias para toda a gente. Nem são certas para toda a gente. Uma iniciação vai sempre trazer responsabilidades com isso, seja a nível do Sacerdócio (que foi aqui falado acima de tudo, dado que a grande maioria das iniciações acaba por acarretar um Sacerdócio com ela) ou a nível de responsabilidades acrescidas que ficam atribuídas ao iniciado. Não há problema em não querer ser iniciado e isso não faz a prática de alguém menos válida do que a prática de alguém que é iniciado. E alguém iniciado não quer dizer que seja mais do que outros não iniciados, principalmente pessoas fora da sua Tradição/Organização. E acho que é isto que não é falado vezes suficientes nas nossas comunidades, acabando por ser perpetuado um discurso de "superioridade" por parte de quem tem mais iniciações o que, na minha honesta opinião, é um comportamento desnecessário e que faz mais mal do que bem. 

E vocês, o que acham? 

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Sob o Luar by Alexia Moon/Mónica Ferreira is licensed under CC BY-NC-ND 4.0