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Sob o Luar


Uma das coisas que parece bastante complicada quando estamos a começar no caminho do Paganismo ou da Bruxaria é o de criar a nossa própria prática e como dar os primeiros passos para estruturar o nosso caminho. Este artigo tem como objetivo reunir algumas dicas para ajudar neste processo! 

Para começar é preciso recordar que tudo deve ser feito ao nosso próprio ritmo. No final de contas, seja o nosso caminho mágico ou nosso caminho espiritual, ambos são caminhos individuais e para nosso próprio crescimento, satisfação e felicidade. Não estamos a competir com ninguém nem existe nenhuma corrida, pelo que devemos ir ao nosso ritmo pessoal e conforme aquilo que estamos a sentir que é o certo. 

A melhor forma de construir a nossa prática pessoal é ir aos poucos, conforme vamos aprendendo e experimentando. Não nos podemos esquecer que, como tudo na vida, a nossa prática vai ser fluída e vai mudar com a passagem do tempo, por isso, um dos principais conselhos é estar aberto à mudança e à fluidez das nossas práticas. 

Para além desta fluidez temos também de nos recordar de não querer ser perfeites logo ao começo e que falhar ou experimentar coisas só pela vontade de experimentar é normal e até aconselhável, por isso, devemos sempre lembrar-nos que a primeira estrutura ou rotina que criamos não vai ser a que vai ficar para sempre ou a "definitiva". Temos a liberdade para explorar os nossos caminhos da forma que achamos melhor e que nos identificamos mais. 

Após já termos algumas bases nos assuntos é quando começamos a querer estruturar algo conciso e dar-lhe um nome. Começar a identificar-nos com um caminho específico e estruturar como a nossa prática é definida. Algumas dicas para quando iniciamos este processo:
  • Fazer uma pequena lista dos nossos interesses dentro do Paganismo e da Bruxaria, para entendermos onde está o nosso "nicho" e o nosso foco. É okay se a lista for diversificada, mas termos esta estrutura escrita ajuda-nos a guiar-nos e a saber por onde trilhar. 
  • Fazer uma lista de palavras que achamos que definem o nosso caminho. Podem ser palavras aleatórias como "Verde", "Fadas", "Grécia", etc. Algo que nos ajude a classificar as coisas que associamos com o nosso caminho. 
  • Se não quisermos dar já um nome ao nosso caminho, não há problema! Podemos apenas identificar-nos com termos vagos como "Bruxe" ou "Pagão" e ficar por aí. Esses termos são válidos. Até "Curiose" é um termo válido. 
  • Se houver afinidade por algum tipo de divindade ou algum panteão, podemos começar a explorar mais esse campo para ajudar na nossa prática, dado que muita coisa pode ser construída em torno do culto devocional a Divindades. A mesma coisa se aplica a Seres Mágicos ou Entidades! 
  • Depois de termos criado a nossa lista de interesses e a lista de palavras chaves, podemos começar a procurar conteúdos (tanto online como em livros) relacionados com essas temáticas. Ver o conteúdo de outros praticantes vai ajudar-nos a tirar ideias de coisas a aplicar na nossa prática. 
  • Se houver, recomendo também juntar a comunidades relacionadas com os nossos interesses como Grupos do WhatsApp ou de Facebook onde se possa trocar opiniões e ideias com outros praticantes. 
No final das contas o que não pode ficar esquecido é que o caminho a trilhar é, e sempre será, nosso e somos nós que o definimos e o vivemos, pelo que devemos sempre trabalhar para sermos felizes no nosso caminho e não necessariamente agradar outras pessoas ou cumprir "aesthetics" (que é um dos principais problemas das redes sociais hoje em dia). 

E vocês, que conselhos dão nestas situações?  
Capa do Livro
Título: Dedicant, Devotee, Priest: A Pagan Guide to Divine Relationships
Autor(es): Stephanie Woodfield 
Pontuação: ★★★★★
Descrição: Construa um relacionamento com os deuses em todos os níveis de devoção. Em qualquer caminho espiritual, buscamos uma forte conexão com os deuses. Mas sabe como desenvolver verdadeiramente um relacionamento com eles? Este livro orienta a servir o divino em três níveis significativos que vão além de apenas pedir aos deuses apoio mágico ou pessoal. Dedicant, Devotee, Priest fornece explicações práticas sobre o que significa venerar uma divindade, como saber quando alguém está tentando chamar sua atenção e muito mais. 
Onde Comprar*: Wook 
Análise: Hoje trago uma análise de um livro que li recentemente, que é o "Dedicant, Devotee, Priest"! Já andava desejosa de ler este livro há bastante tempo e finalmente tive a hipótese de o começar a ler e, tenho a dizer, que não só o amei completamente como vou passar a recomendá-lo a todes interessades em iniciar algum tipo de relação devocional com uma Divindade, seja de que panteão for.  

A autora do livro inspira-se na sua prática pessoal, que é bastante influenciada por práticas celtas e nórdicas, contudo, o livro pode ser utilizado por pessoas de todos os caminhos (eu sou Pagã Helénica e sinto que beneficiei muito do livro)! O livro é bastante diverso e fala de vários tipos de relacionamentos com divindades, focando-se principalmente nos três mencionados no título: Dedicado, Devoto e Sacerdote. Cada um destes tem o seu respetivo capítulo, recheado de informações e exercícios, principalmente de reflexão mas também alguns de rituais. Estes exercícios são, a meu ver, a cereja no topo do bolo porque permite ao leitor levar o conteúdo do livro da parte teórica para o campo prático do seu caminho e são uma mais valia. 

Um dos pontos que me pediram, no Refúgio, para desenvolver sobre era qual a minha opinião sobre a parte 3 do livro, em que é falado do Sacerdócio Pagão. Pessoalmente foi uma parte do livro que gostei muito! Temos poucos livros que falem abertamente do conceito de Sacerdócio Pagão e de como este se pode apresentar nas nossas comunidades e achei fantástico a autora não só referir como dar exemplos da forma como um Sacerdócio pode ser vivenciado. 

Todo o livro está recheado de citações fantásticas e que nos fazem refletir acerca da nossa relação com os Deuses e da forma como os mesmos estão presentes no nosso dia-a-dia, contudo, houve uma frase muito especial que eu adorei e que sinto que é obrigatório mencionar nesta review:

"Fully conceptualizing the scope of the gods is like trying to hold the ocean in a teacup. The ocean remains vast, but our conscious understanding of it may only be the waters we catch in our teacup. Some of us may scoop up different-tasting waters in our cups. So perhaps it is no wonder that there are many different models for devotional relationships. Some are permanent, some are not."

Tradução (por mim): "Tentar conceptualizar a total presença dos deuses é como tentar segurar o oceano em uma chavena de chá. O oceano continua vasto, mas nossa compreensão consciente dele acaba por ser apenas as águas que colhemos na nossa chávena. Alguns de nós podem apanhar água de sabores diferentes nas nossas chávenas. Portanto, talvez não seja de admirar que existam muitos modelos diferentes para relacionamentos devocionais. Alguns são permanentes, outros não."

No final de contas, e como este livro bem menciona, a nossa relação com os Deuses é mesmo isso: Nossa. E nós é que a vivenciamos e experienciamos e, tal como os relacionamentos com as pessoas em nosso redor, todas elas são relações únicas e especiais. 

E vocês? Já leram este livro? Que acharam? 

* Os links fornecidos pertencem a 'Affiliate Programs' e geram uma taxa de lucro ao Sob o Luar. Não existe qualquer despesa adicional para o comprador. 

Hoje vamos voltar a falar sobre Divindades e, mais especificamente, como começar a trabalhar com elas. Sim, já temos um artigo parecido aqui no blogue, intitulado "Como começar devoção aos Deuses?" mas, como podem ver, eu escolhi terminologias diferentes: Trabalho vs Devoção. 

Enquanto a devoção, que foi falado no meu artigo antigo, tem um carácter mais religioso e espiritual, o trabalho é algo mais prático e mais comum dentro da Bruxaria, onde é estabelecida uma relação de trabalho com uma divindade. Ou seja, a divindade e o praticante estão numa espécie de negócio, em que há uma troca de algo a ocorrer, por norma, oferendas em troca de algo para o praticante. Este tipo de trabalho é algo mais informal e, em alguns casos, sem qualquer tipo de intimidade por parte do praticante (algo que na devoção acaba sempre por acontecer). 

O trabalho com as Divindades pode ser feito pelos mais diversos propósitos mas, por norma, é no seguimento de trabalhos mágicos no qual o praticante queira solicitar a ajuda de Deuses. Este trabalho mágico com as divindades não requer compromissos, tirando aqueles estabelecidos durante a troca ou acordo com as divindades, mas requer trabalho por parte do praticante, principalmente em garantir que aquilo que prometeu aos Deuses lhes é entregue. Um exemplo prático é um praticante que prometa a Hermes que lhe fará oferendas semanais durante um período de um ano em troca de ajuda num processo de candidatura de emprego. O praticante terá de garantir que, durante aquele ano, fará as oferendas prometidas. 

Mas, como começar este tipo de prática? Este tipo de prática não é para toda a gente, até porque, como já falamos, a Bruxaria pode ser praticada sem a presença de Deuses. Não é uma prática obrigatória e só deve ser feita por aqueles que se sentem confortáveis com isso. Por norma, neste tipo de prática, não há qualquer chamamento por parte de Divindades, porque o principal interesse nesta troca é do praticante. 

Inicialmente, é preciso garantir que não vemos os Deuses como "Deuses de Prateleira" (podem ler mais sobre o assunto, no artigo do link) e que os vemos como entidades individuais (no caso do politeísmo, mas também aplicável ao caso da Deusa/Deus da vertente duoteísta). Ou seja, não devemos começar a ir sempre a Afrodite porque queremos amor ou Hermes porque queremos ajuda com dinheiro ou Atena porque queremos ajuda com os estudos. Apesar de ser um processo de trabalho, e não de devoção, não significa que os Deuses sejam bonecos para serem explorados ou utilizados. Vejam os Deuses, neste cenário, com amigos que vocês conhecem. Vocês se tiverem um amigo que tenha dinheiro, não vão estar sempre a ir a esse amigo pedir dinheiro, não é? Porque ele vai acabar por se cansar de vocês e deixar de responder às mensagens. E os Deuses, passa-se a mesma coisa, vai acabar por haver divindades com as quais vão trabalhar mais vezes e às quais podem recorrer para pedir ajuda, mesmo que não seja totalmente do foro delas. E não há problema nisso. 

Outro passo essencial, semelhante ao que acontece no processo devocional, é a necessidade de explorar e aprender sobre a Divindade. Não podemos apenas fazer um ritual, chamar Zeus e dizer "Olá Zeus, quero isto". É óbvio, não é? Isto é a mesma coisa que ir na rua, parar um estranho e pedir 20€. Ninguém faz isso. É preciso entender a divindade, entender os seus mitos e ter alguma noção sobre quem estamos a chamar e se é a pessoa certa para o que precisamos (tal como faríamos se fossemos contratar um carpinteiro para arranjar em casa, não iríamos ao primeiro que aparece na pesquisa, mas iriamos ver qual o melhor para o que queremos). Cabe ao praticante fazer o esforço de aprender sobre a Divindade e tomar a iniciativa. 

Aqui é a parte onde difere do aspeto devocional: Enquanto no devocional iniciaríamos o processo de aproximação da divindade, oferendas e meditações, criar altares e por aí fora, no campo do trabalho mágico esse aspeto acaba por não acontecer (pode acontecer, mas não é uma necessidade). Aqui inicia-se o trabalho mágico em si, seja ele qual for. E é feito o acordo e a troca com a Divindade (seja ela qual for, também). E depois, é da parte do praticante garantir que cumpre a sua parte, mantendo o respeito pela Divindade e pelo trabalho que está a fazer. No fim, poderá despedir-se da Divindade de vez ou continuar a trabalhar com ela durante mais algum tempo. 

Espero ter ajudado a distinguir o conceito de devoção e de trabalho e conseguido orientar no processo de aprender sobre como começar a trabalhar com Divindades. O resto é tentativa e erro da parte do praticante! 

Se quiserem deixar dicas (ou questões) nos comentários, sintam-se à vontade! 

Um dos temas que me foi pedido no Instagram do Sob o Luar foi para falar sobre a apropriação cultural e como evitar a mesma na nossa prática. Antes de começar, vamos definir o que é apropriação cultural: 

Segundo Arnd Schneider (2003) a apropriação cultural é a adoção inadequada ou não reconhecida de um elemento ou elementos de uma cultura ou identidade por membros de outra cultura ou identidade. Isso pode ser controverso quando membros de uma cultura dominante se apropriam de culturas minoritárias.

Alguns exemplos de apropriação cultural são, por exemplo, os disfarces de "índios" que se vêm durante o Carnaval ou Halloween que são uma clara ofensa aos povos nativos-americanos. Ou a utilização do termo "smudging" para significar limpeza de um local, sendo que esse termo é exclusivo de tribos índígenas onde smudging não é apenas queimar ervas para limpar uma casa, mas todo um ritual específico dentro desta cultura. Existem diversos exemplos de apropriação cultural, de diversas culturas, que acabam por estar presente, infelizmente, em nosso redor. Contudo está no nosso poder (e dever!) garantir que não as propagamos e, aliás, que educamos as pessoas à nossa volta para não compactuar nestes comportamentos. 

É também importante distinguir que existem diferenças entre o termo de "apropriação cultural" e o termo "prática fechada". Uma prática fechada é, por norma, uma prática que requer iniciação dentro da mesma e que não pode ser praticada fora desses grupos ou tradições. Não quer dizer que a pessoa X ou Y não a possa praticar mas, para o fazer, terá de ir ter com esses grupos, introduzir-se nas suas culturas, socializar, conhecer as pessoas e, se o grupo em causar a aceitar, então aí tratar desse processo. 

Agora, a grande questão: Como evitar praticar apropriação cultural? 

Acima de tudo entendendo de onde vêm as coisas que estamos a praticar. Quando estamos a aprender sobre Bruxaria e Paganismo e vemos algo que gostaríamos de incorporar na nossa prática é essencial investigar sobre esse assunto e, acima de tudo, entender as suas origens (e, dessa forma, acabamos por entender também o seu funcionamento). Obviamente que uma prática que seja comum em todo o espaço europeu não vai ser um caso que possa ser apropriado culturalmente porque faz parte da cultura de todo um continente que possui um papel dominante na sociedade ocidental. Ou uma prática que seja de uma cultura morta (como Antigo Egipto ou Roma Antiga), porque não há uma cultura minoritária a ser afetada, porque a mesma já não existe há milhares de anos (ao contrário do que muitos grupos nacionalistas dentro das comunidades possam tentar alegar). Mas se calhar, se for uma prática de uma tribo indígena sul-americana já se trata de uma apropriação cultural, principalmente se essa cultura for abertamente contra essa prática (que é o caso de algumas práticas africanas ou de tribos indígenas brasileiras que se vêm apropriadas). 

Esta é, sem dúvida, uma área na qual é preciso trabalho ativo. Não há forma de ter uma lista com todas as coisas que não podem ser apropriadas culturalmente porque isso seria impossível. É preciso ler e investigar o assunto (O google é uma excelente ferramenta o TikTok/Tumblr nem por isso) e ver, acima de tudo, testemunhos de pessoas que fazem parte das culturas afetadas para entender o feedback delas. Em caso de dúvida, podemos sempre participar em comunidades online e questionar os outros para tentar aprender (principalmente questionar pessoas dessas culturas porque não é alguém como eu - branca e europeia - que vos vai conseguir falar em nome de uma cultura à qual eu não pertenço). E em caso da dúvida se manter, podemos sempre abster-nos de certas práticas ou, melhor ainda, substitui-las por coisas mais perto de casa! Por exemplo, voltando ao caso do smudging: Ao invés de querermos queimar sálvia branca ou palo santo (que são duas plantas que estão a ser exploradas em excesso ao ponto de estarem em risco e, também, utilizadas originalmente por povos nativo-americanos) para limpar a casa porque não usarmos plantas locais de Portugal? Temos o alecrim, a arruda e a sálvia comum que fazem exatamente o mesmo papel e são plantas presentes no nosso ecossistema local. Não só estamos a evitar sobre-exploração de uma planta, evitar apropriação cultural como ainda estamos a conectar-nos com a nossa flora local, utilizando plantas nativas da zona onde vivemos. 

Por fim, gostava de recomendar um artigo (em inglês) que li sobre a temática: "Cancelled for Renovations: More Thoughts on Closed Practices". Espero ter ajudado a esclarecer um pouco mais este tópico e sintam-se à vontade para dar as vossas opiniões (respeitosas, porque qualquer comentário extremista nem será aceite) nos comentários! 

Nota: Um agradecimento especial à Sininho que me ajudou a rever este texto! :) 

Um dos tópicos de bastante conversa e controvérsia nas nossas comunidades pagãs em geral é o tópico do Sacerdócio. Um Sacerdócio, dentro do Paganismo, pode significar várias coisas, ser alcançado de várias maneiras e pode dar discussões de vários assuntos. Este artigo não pretende desvalidar ou validar qualquer tipo de Sacerdócio e é apenas um artigo sobre acerca do que é o Sacerdócio e dar alguns exemplos de tipos de Sacerdócio. Para uma reflexão acerca da validez de Sacerdócios e de Iniciações, podem consultar este artigo aqui no blogue.

Um livro que recomendo muito sobre esta temática é o A Practical Guide to Pagan Priesthood, que já analisei aqui no blogue, e que acho ser uma leitura essencial para quem está interessado neste tipo de temática. 

Mas então, o que é um Sacerdócio? A definição de Sacerdócio é "Conjunto das funções e dignidade do ministro/sacerdote de um culto qualquer" . E um ministro/sacerdote é "Pessoa que fazia sacrifícios às divindades". OU "Pessoa que ministra os sacramentos de uma igreja." (definições de Dicionário Priberam da Língua Portuguesa). Ou seja, um Sacerdócio é o nome dado ao trabalho de um Sacerdote que é, para todos os efeitos, uma figura que presta serviços ou sacríficios a um determinado grupo religioso. Um exemplo comum de sacerdote é um padre de uma paróquia, por exemplo.

Dentro do Paganismo temos vários tipos de Sacerdócios. Temos Sacerdotes dentro da Wicca, onde é feito um período de treinamento e são feitos votos sacerdotais que podem ser renovados dependendo da súbida de níveis dentro da Tradição. Temos também dentro do Druidismo algumas organizações onde são feitos votos sacerdotais de serviços à comunidade. Dentro da Fellowship of Isis temos a possibilidade de ser realizado um Sacerdócio de forma a ser prestado trabalhos à comunidade em nome de Divindades (idealmente femininas). Também dentro da tradição de Glastonbury Goddess Temple, por exemplo, existe treinamento sacerdotal que concede títulos dentro da organização e da tradição em específico.

E existem muitas outras tradições e grupos religiosos que têm processos de treinamento que acabam por conferir graus sacerdotais (ou outros equivalentes, com nomes diferentes). A essência é a mesma: Alguém fica capacitade para servir a comunidade, dentro daquela tradição e nos moldes da mesma. E é, essencialmente, isso que é um Sacerdote/Sacerdotisa. Não se trata de um cargo por nome ou apenas para ter hierarquia sobre outra pessoa. É um cargo que representa um comprometimento com os Deuses e com a tradição onde ocorreu a iniciação, para prestar um serviço à comunidade e às Divindades. Este serviço pode ser prestado de diversas formas e há vários tipos de Sacerdotes e Sacerdotisas e várias formas de prestar os serviços. Pode ser através da organização de eventos para a comunidade, através do fornecimento de recursos, de acompanhamento de doentes ou pessoas em fim-de-semana, através de ajuda a grávidas e momentos de nascimento, acompanhamento emocional e de apoio à comunidade, através de serviços oraculares ou até de disponibilização do corpo como veículo para incorporações divinas, etc, etc. São imensas e variadas as formas como um Sacerdócio pode ser exercido e concretizado, dependendo apenas das pessoas envolvidas e dos moldes da tradição em que esta iniciação ocorre. 

Isto, para dizer, que um Sacerdócio não é algo que deve ser iniciado de ânimo leve. Acarreta um elevado nível de responsabilidade e de comprometimento por parte da pessoa que está a tomar os votos, porque vai estar a dedicar a sua vida ao serviço das Divindades e daquela Tradição, a partir daquele momento. Eu costumo dizer que é boa ideia comparar com os sacerdotes cristãos ou de outras vertentes mais estabelecidas: Um padre católico, por exemplo, faz vários sacríficios pessoais para exercer o seu cargo dentro da Igreja e assume um nível de responsabilidades e de comprometimento que, para todos os efeitos, é para a sua vida inteira. E um Sacerdote ou Sacerdotisa dentro do Paganismo deverá encarar o Sacerdócio da mesma forma. 

Mas sei o que questionam: "Se me tornar Sacerdote/Sacerdotisa, não posso desistir/parar?". Bem... Idealmente não, né? O ideal é que os votos sejam feitos para a vida. E é isso que a maioria dos Sacerdotes e Sacerdotisas faz, tal como os padres fazem. Mas, todos sabemos, que a vida é feita de mudanças e tal como há padres que saem da Igreja também há Sacerdotes/isas no Paganismo que acabam por sair dos seus serviços ou das suas tradições. Os moldes em que estas saídas saem são exclusivos de cada tradição e devem ser vistas dentro da mesma, pelo que não vou dizer o que faz ou deixa de fazer, porque vai depender de caminho para caminho. Mas, não podemos esquecer, que a tomada de votos sacerdotais é um comprometimento sério e deve ser levado com seriedade e conhecimento daquilo com que nos estamos a comprometer. 

E vocês, já conheciam? Conhecem Sacerdotes/isas? O que acham desta temática?

Ao longo da nossa prática mágica ou do nosso caminho espiritual vamos, eventualmente, ter mudanças. Sejam mudanças pequenas em que passamos a fazer certas práticas diferentes ou mudanças grandes em que mudamos completamente a nossa nomenclatura e a forma como encaramos a nossa prática, elas estarão presentes. Estamos errados se achamos que conseguimos ficar imutáveis durante 10, 20 ou até 30 anos. A mudança é (in)felizmente, inevitável. 

Recentemente passei exactamente por isso, por grandes mudanças na minha prática, daí querer trazer-vos esta temática para vos conseguir dar alguns conselhos que gostaria que me tivessem dado quando comecei este processo. Para quem me conhece, sabe que comecei a praticar quando ainda era adolescente e considerava-me "Wiccana Solitária", tendo passado a denominar-me como "Pagã Eclética" aos 18 anos. A partir daí foi sempre uma mudança entre Bruxa Eclética e Pagã Eclética, alternando às vezes com Bruxa Folk ou de Cozinha e por aí fora mas, na essência, a prática era sempre mais ou menos a mesma. Contudo foi em 2020/21 que as coisas mudaram, de uma forma inesperada. Apesar de já praticar há mais de uma década nessa altura, passei por mudanças ao ponto que mal me identifico com a prática que tinha antes destas mudanças. Descobri o Helenismo e finalmente aceitei que, apesar de adorar Bruxaria e adorar estudar sobre Bruxaria, não sou muito dada à sua prática, preferindo ficar-me pelo aspecto religioso e quotidiano, com ligeiro uso da Magia apenas para coisas como limpezas e proteções. Encontrei uma nova casa, digamos assim. 

Mas esta mudança não veio sem dificuldades! Tal como todas as mudanças, esta tirou-me da zona de conforto e atirou-me para dentro de um mar vasto, o qual desconhecia completamente. E é assustador. Seja qual o caminho para o qual estamos a mudar, acaba sempre por ser assustador, porque é como estivessemos a voltar à estaca zero. Quando já temos algum tempo de prática, temos tendência a ficar confortável no nosso nível de conhecimento. Vamos aprendendo mais coisas e acrescentando coisas mas é um crescimento mais gradual e mantendo-nos dentro da nossa zona conforto. Porém quando algo nos puxa para fora dessa zona e acabamos por entrar em toda uma nova divisão, é como descobrir uma nova zona do mapa, totalmente por descobrir e do qual não sabemos nada. E nesse momento passamos a não só ter de conhecer esta nova zona do mapa como conseguir conciliar com as zonas do mapa antigo que queremos manter. É como um puzzle que estamos a construir e quando chegamos ao fim surge mais um novo puzzle novo que se vai juntar ao nosso e temos de saber onde encaixar as nossas peças, mantendo algumas das iniciais. 

E isto é, sem dúvida, uma experiência avassaladora. Mas não é impossível de experienciar! Agora, em 2022, quase dois anos depois de ter começado estas mudanças, já me sinto mais confortável na minha pele e no meu novo caminho. Ainda há muita coisa por limar e aprimorar mas a parte mais díficil (o começar!) já está feito e agora é manter e ir caminhando, porque estas são aprendizagens para a vida inteira. E é por isso que gostava de partilhar convosco alguns conselhos que gostava que me tivessem dito quando comecei estas mudanças:

  • É válido mudar. É valido variar a nossa prática. A sociedade hoje em dia, principalmente nas comunidades online, pode levar-nos a achar que temos de ser sempre a mesma pessoa com os mesmos valores, crenças e métodos ao longo de toda a nossa existência mas isso não poderia estar mais longe da verdade. Enquanto seres humanos, somos seres mútaveis e a mudança é algo natural para nós, tal como para toda a Natureza em nosso redor. Não tenham medo de mudar algo se já não vos funciona ou se já não se identificam com isso. 
  • Não precisam de saber tudo assim que começam. Principalmente para quem já pratica a bastante tempo, e já tem algum conhecimento consolidado, pode ser assustador mudar um caminho de forma drástica, principalmente para um tipo de caminho que não conhecem tão bem. Passar da zona de conforto onde sabemos as bases todas para um novo sítio em que somos um novo aprendiz é assustador mas não é menos válido ou vergonhoso, pelo contrário! É normal, ao longo do nosso caminho, haver alturas em que não sabemos algo e que voltamos a ser iniciantes e isso vai acontecer em mais do que um momento. É apenas necessário embarcar na nossa jornada de aprendizagem, recolher fontes e livros e recursos e mergulhar em toda esta nova informação que está à nossa frente e começar a dar os primeiros passos. 
  • Vão haver pessoas que vão criticar. Seja nas comunidades do novo caminho que estamos a começar a trilhar ou nas comunidades onde estavam, há sempre gente que vai achar que por estarmos em espaços públicos que têm o direito de opinar sobre o que fazemos ou deixamos de fazer. Infelizmente, é inevitável. Contudo temos um poder especial: ignorar. Não me refiro ignorar críticas construtivas ou opiniões de pessoas que nos querem ajudar, mas sim ignorar aquelas vozes que insistem em meter defeitos nas coisas ou renunciar certos aspectos ou práticas apenas porque elas não coincidem com a sua prática pessoal. Um exemplo prático disso é o meu Sacerdócio. O meu Sacerdócio foi feito dentro da FOI e tem a sua forma de ser. Não é, nem será, um Sacerdócio dentro do Politeísmo Helénico, contudo, pode co-existir com o mesmo. Mas há muita gente que acha que não. E estão no seu direito... Elas ficam com a opinião e eu fico com o meu Sacerdócio e o meu caminho e vivemos todos contentes (eles provavelmente menos do que eu).
  • Mesmo dentro da mudança, podemos mudar novamente. Este não foi o meu caso, mas conheço amigues em situações semelhantes. Em que as suas práticas começaram a mudar e começaram a achar que a prática ia ser X e depois acabou por ser Y. Ou ainda passou pelo Y e ficou no Z. Entre outras combinações. A mudança não precisa de ser uma só, pode ser quantas forem necessárias até acertarmos na fórmula que funciona para a nossa prática individual e pessoal. Não há problema nisso e todos os tipos de mudanças são válidos. 
Estes são alguns dos conselhos que gostava de ter tido quando comecei as mudanças no meu caminho espiritual e mágico. E vocês, já tiveram mudanças assim? Que conselhos dariam para quem está a passar por isso?
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